quinta-feira, 11 de março de 2021

Possessão

Sou pessoa de gravetos e besouros,

coleciono folhas e sementes

e tenho uma orelha de pau amarela.

Um saci me deu um apito de pena,

diz que chama anta e desvia vento.

Tenho ideias para grilos marrons

e formigas de Embaúba mole.

A estradinha que entortou a tarde

é o meu caminho para a eternidade,

no lusco-fusco das manhãs eu medro

entre uma casca de pequizeiro

e a sucupira prenhe que solta bagos.

Minha alma é cascarosa e áspera,

tem estames, limbo e veios.

Um urutau me ensinou um toco,

enganar a morte é arte de esgueirar-se,

de folhar-se e escutar o quem-quem avuando.

Sou raso, e guardo burburinhos no bolso

mode dormir um regato na noitinha

quando évem gorgorejando a lua.

Tenho pressa não, ambições de sereno

e um calanguinho que escondi,

onde o sonho é sempre vívido,

onde deito meu cansaço, meu temor,

onde não tenho possessão nem desejo,

só o som de aluviões e um vento besta,

que desalinha folhas e pedrinhas inúteis.


domingo, 18 de outubro de 2020

O arlequim

 

O homezeco entrou no salão apressado,

trazia chocalhos, guizos e a escarlata,

trajava vestais de escândalo e pantomimas

e começou seus mambembes célere,

com esguichos, parolas débeis

e notória algazarra.

Ora zurrava como um asno,

ora mugia, ora paroleava.

A audiência a princípio desdenhou

e do esgar foram ao riso,

logo estavam às favas.

Ele sentia que a bazofia era boa,

 dava saltos, bailava e esganiçava,

a grita o aplaudia e gozava.

Apitos, apupos e tiros

aos inimigos que inventava.

Foi assim por longo tempo

mas suas calças rotundas,

deixavam mostrar a genitália.

A certo tempo a turba empacou

pois viu-se detrás das cortinas,

as cordas que lhe alçavam...

Era um títere! Alguém o controlava.

Houve protestos, muita grita muitos gestos,

muita desdita e todos logo debandavam.

seu mestre vetusto se esquivava.

Mas derrubou-se o teatro

e o horror já se mostrava.

Todo de negro, besunto

seu corpo espinhoso limbava.

A cara horrenda, olhos saltados,

dentes de cão que grunhia,

nomes horrendos gritava.

Tudo se revelou,

tudo agora clareava.

Mas seu boneco insuflou!

Já tinha vontade, discursava.

Agora empunhava bandeiras

e ferros que balançava.

Seus partidários que dopara,

viam-no como antes,

um que tinha parolas,

que esperançava.

Arrebanhou para si aquelas pobres almas

e partiu ao ostracismo que a história lhe legara.

Mas outros vendo-lhe a bufa,

puseram de molho a barba,

aprenderam-lhe as astúcias

e cozeram-se para si fardas,

vestiram-se de devotos discípulos

e deram-se com vigor à charla.

 


terça-feira, 18 de agosto de 2020

Agosto e as chuvas

É um rufião

e se inaugura soproso,

com açoites se esfarfalha todo,

mode o povim-povim saber sua fúria,

seu reinado de tufões e poeira.

A secura vai ancha nas campinas,

estrepitando e deitando o erval.

o capim nédio vai derriçando

obediente ao seus caprichos.

Sua têmpera  de mulher rixosa,

não descansa no negrume da noite.

Ameaça com chuvaral, mas é embusteiro,

quer ver  o crepitar, o desterro.

Há quem se lambuze em seus arroubos

e até faça gosto em suas mungangas.

Sou destes que apreceia o desgosto,

a loucura de cães e os arabescos

que ele desalinha na anchura do mundo.

Agosto é pra quem tem partes co'um!

(nome de nem se desdizer que é ruim)

Com gravetos e besouros,

com a lagartixa quando espia

solerte, mas como quem morre.

Destarte vou criando raízes

e esporões do azedume de agosto.

-Êta que évem chuva sô!

-Né pouca não, ta percisano!


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Aguaceiro

A beleza de agosto está na bagaceira,
no crepitar do capinzal tórrido.
Na anchura de um valado seco,
no prim-prim-prim de um rego lerdoso.
...
Uma fumacinha subiu na lonjura.
É queima que inaugurou  cana!
Um estalido anunciou água dentro,
mas o fogo lambeu sereno, sem pressa.
Redemoinho mentiu chuva breve:
-Tem capiroto que dança nele!
Coisa de se pegar em peneira e engarrafar.
-Qual! É astúcia do vento barulhoso!
-Se ocê num querdita num desdenha sô;
que é bicho assombroso de outro mundo!
Lenda de caboclo besta, sismoso sempre.
...
Sei de um segredo que ninguém conhece:
Um pedrusco avermelhado que escondi no morrote.
Sua pele sempre lisa, sua solidão me põe inveja.
Sou pessoa de gravetos, de cascas e estames partidos,
tenho apreço por grilos marrons e besouros cegos.
Uma nuvenzinha se aprumou no horizonte,
mas nem chuva nem vento, só secura.
A capoeira vai se organizando mode a noite,
que évem solerte, trazendo um bafo úmido,
um restolho de esperança, um alento ao seco.
Entre mugidos e grunhidos nos baixios,
um caga-cebo assoviou auspicioso
e o coleirinha banhou-se na areia mornenta.
Tanto festejo, tanta farrura nas copas,
agosto anuncia seu cansaço, 
breve évem aguaceiro!

domingo, 25 de junho de 2017

Grotões

Não há poesia na vida
nem na morte que olha
pela porta entreaberta.
Não há poesia na libélula louca,
nem no menino que corre.
Não há poesia naquele mourão,
nem no bem-te-vi inconstante
que mercadeja a Embaúba doce.
Ela é um pangaré hesitante,
sempre mambembe, moura,
de ideias oscas como a vaca.
Carrega nua pela estradinha,
suas trempes etéreas, devaneios,
desvarios inúteis sobre paus,
penas e a serralha de flor branca.
Quem se ocupa com suas lérias
perde tempo e nada ajunta.
É ópio e fumega constante
sempre adernando, sempre tosca.
Versa ora sobre um rio ancho,
ou aquele rego d'água tiubeante,
que tirilinta um buriburi infinito.
Não constrói nenhuma valia,
mas sabe de coisas do cerrado,
do fogo que correu bicho,
da florzinha que despega voando
pelo desalinho que o vento teceu,
nas pequenas touceiras de capim,
na tarde oscilante. Somenos!
Como quando a formiga assunta o rumo,
ou quando um João-de-barro dá seu pulo-passo.
Nome de paus, de gentes, de bardas,
histórias que coisam a noite quando coisa.
Na poesia a realidade se alonga na brenha
e da lugar a nadas, a eitos vazios, a grotões.
A poesia é uma loca de antanhos.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

As vendedoras

Na avenida Calógeras,
moças ocas esperam
na porta inconsciente,
soslaio no séquito.
Esperam o freguês, o paciente,
o impeachment, o golpe transeunte.
Passam velhos, moços cansados,
passam meninos, meninas casadas.
Todos passaram...
Passou o dia, passaram os anos,
a moda passou, elas ficaram.
As moças ocas botaram brotos,
seus olhos extenuados secaram.
Mas o tempo ali não passou,
foi ficanducando, criando arestas,
deixando marcas empoeiradas,
marcas de desesperança, esperando.
O verdugo das horas marcou incessante
no descompasso de um tempo antigo,
sempre o mesmo modo, redundante.
As moças aquiesceram, sempre ocas,
repetindo o mesmo mantra
num muxoxo inaudível:
O preço, o desconto, o clima, a novela...
Bancas repletas de desejos rotos,
que o sol marcou graciosamente,
em tons de amarelo ouro, desbotando.
A conversa ensaiada, reza o mesmo:
O desgoverno, o furto, a propina...
Essas moças que regem esse mundo oco,
estão lá para fazer esquecer o desgosto,
sabendo que cada passante vai oco,
buscando o motivo de dar o próximo passo-passo,
pisadas ocas ecoam nas moças ocas
em seu mundo oco.
-Chegar freguês! É promoção!

Fastio

Viver sempre na superfície,
nos valados, no rasteiro, no grotão.
O raso é sempre seguro, não intima,
onde o mormaço oscila uma poça
e uma poeirinha besta açoita.
Sou do raso, da superfície,
rejeito profundidades e inquérito.
Quero sempre o inútil do cerrado,
a fome do lobinho, o mormaço,
o sol que finda amarelando o dia
para a noite já se inaugurando.
As demandas dos homens cansam,
sempre a mesma ladainha, o mesmo choro,
a mesma reza inútil, a mesma fome.
Tudo é solene, tudo é sagrado:
A morte, o nascimento, os laços,
a dor, a alegria, tudo é pesado...
Clérigos roçam baixo, o pasto
com sua nobreza régia, sua voz calma,
seus arreios levam seixos santos,
ossos, panos,lágrimas, lâminas etéreas.
Mas o grotão tem seu próprio lume,
sua prece sinuosa, sua volúpia,
seu burburinho aquoso, seu nume.
O carcará pinçou um pintainho
e subiu seu voo legítimo.
Uma rabeca lambeu um ingazeiro,
seco, seu dorso branqueia a casca.
O inverno no cerrado é amarelo
no capim que cresta derriçoso.
Querelas estão nas copas por pouso,
não há necessidade de ordem.
Ao fim do sol, a noite negrurou
e as manhas virão eternamente.
-Percisa não seu moço!
O que évem sempre já estava!

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Pé de serra

Naquele mundico antigo,
lá, naquele lugarojo empedernido,
onde o céu descansa na serra,
um par de asas desenhado em cartilha,
passarou uma nuvem encostada.
Piooú! Piooú! Agourou penoso em assomo.
Flap! Flap! Desenhou no ar um risco
e sujou rumo do sol pastoso.
Na estradela espichada na brenha,
pedruscos encarnados, silenciosamente
querelam um mormaço ondoso,
que sobe fumacento no meio do dia.
-Digue! Digue tu que desdigo!
-Digo não que estou com pressa!
Anum tergiversa com o branco.
(Anum branco falseia a cor)
Fogo-pagou disconcorda:
Errou! Errou!
É sempre agosto nesse lugar
guardado em gavetas de minha avó.
Estão dentro, um cheiro amarelado
de livros que se esqueceram.
Lá, os homens são pra ser lidos,
histórias de assombros medonhos.
-Mode que lobisomem é lendoso!
Desafia o Raimundo em valentia.
-Mas o homem é besta-fera!
(Ensina a didática da corrutela).
Um birim, birim de corguinho intermitente
é a música constante no quintal,
onde as manhãs são tardias
e as tardes matinais.
É a ordem, onde todo desacordo cessa,
onde o tempo desencoraja o relojoeiro.
Onde deixei minhas memórias
guardadas em gavetas abissais,
que se abrem com chaves etéreas.
Lugar inventado no im antes Mato Grosso,
no marracabelo, ao pé da serra.

domingo, 21 de maio de 2017

Cerrado

O cerrado me entardeceu cedo;
Um cheiro ocre, tão áspero, embriagou.
Telúricas almiscaradas se misturam,
tecendo-me teias imemoriais.
Sendas amarelecidas permeiam-me,
rastros, uréia, pedruscos medram dentro.
O outono finalmente desfolhou-se
e enterneceu um pequizeiro.
A escassez do cerrado ensina;
Aprendo-lhe a economia,
o alheamento, o caos ordeiro.
-Lobinho diz que tem, mas raleia!
Tamanduá assunta formiga no vento,
quero-quero mente o ninho gritando.
Agora tem um tom chumboso nas folhas,
breve agosto virá derriçar o capim.
No cerrado o medo erra caminho:
-Assombração num tem gosto na luz!
E quando a noite évem, devagarinho,
a grilaiada organiza o baile inté tarde!
Trovejou na borda da mata dentro:
-Bugio deu notícia de chuva:
Com três dias aguaceiro é certo!
-Há no cerrado toda sorte de vivente!
Uns veve em cima, outros no embaixo!
Essa lonjura sempre no horizonte,
aumenta a vista da imaginação.
O cerrado encerra tudo no homem,
Inté o palavrório vareia!

segunda-feira, 20 de março de 2017

O lucro

O lucro é bruto
é liquido, é de poucos.
O lucro é raso,
é tísico, é louco.
O lucro é volúvel
é volátil, é voluptuoso.
O lucro entontece
inebria, ensandece.
O lucro esquece,
o lucro vence, empobrece.
O lucro caça,
espreita, entenebrece.
O lucro janta, jacta,
almoça o próprio dorso.
O lucro é osso,
é carne, é sangue,
O lucro é um fosso.
O lucro seca,
exaure, extirpa, enrijece.
O lucro sega,
o lucro suga,
O lucro é doce.
O lucro é ogro,
é cego, é mudo, é mouco.
O lucro é um aleijão,
Quasímodo insone,
o lucro é uma paixão.
O lucro é um vício,
é um dote, é vão.
O lucro é um dom,
é torpe, rufião.
O lucro não é de todos,
é de tudo, é ladrão.
O lucro é um menino no escuro
esperando a ocasião.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Plástico

Eu tenho uma TV!
Minha TV é de plástico.
É de plástico minha TV de plástico.
Nela tudo é de plástico.
O jornal é de plástico,
a notícia é de plástico,
a morte é de plástico
e a vida é de plástico.
A arte é de plástico
e tem até comida de plástico.
A criança é de plástico,
a mulher é de plástico.
É de plástico o sofrimento,
o riso, o gozo, a dor,
o parto, a verdade é de plástico.
A mentira?
É plastificada, é duradoura e dourada,
é organizada, metódica,
ela é negociada ,institucionalizada.
Há uma guerra de plástico,
uma hecatombe de plástico.
Em uma sala de plástico,
há um caro tele-espectador de plástico.
Dedos de plástico, sentimento de plástico.
A beleza, o horror, o bizarro,
a feiura, o desastre é destarte,
é de plástico.
O ódio, o sexo, o parricida, o político
o incesto, a puta é de plástico.
O amor? Ah! acabou;
Acabou o plástico.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Cumbaru

O Cumbaru quando empoema, põe cachos;
Castanhoso, sua gravidez é florada.
Em seu corpo cascaroso emprega formigas,
que oficiam na guarda da castanha nascente,
embalada em concha hermética.
Rígido, não se assanha ao vento moço
quando sacode sua cabeleira folhosa.

Em setembro se despe vagaroso
até que um verde terroso lhe pinte a choupa,
anunciando florezinhas esverdejantes.

É outono, em suas raízes o capim brilha serenoso,
abrindo grilos festeiros que se banham
(Tenho olho para miudezas em geral).

Serventia para mourões e esteios,
só seca com mijo de moça virgem
-Alendeia o povo, não ponho valência!
(O Vardi cismando pau oco).

A garça morena, o João de barro, bem-te-vi,
todo o povo rasteiro évem ver
sua sisudez: Compostura de pau.
Costuram seu canto amarelo à sombra,
em raleando o sol começa a pantomia.
-Jão de barro divurga o tempo da chuva!
-No deconforme do ano muda a porta.

Cumbaru balança os braços avisando a hora,


no derriçar do capim vê-se o caminho  se abrindo,
um cheiro de café acena a volta...

(Colhido em uma conversa com o Vardi)

segunda-feira, 28 de março de 2016

Notícias

-Tiro por eito que nesse inverno ingia,
mode a nevoada que evem madrugando!
Maracanã ta empoleirando im antes da lua branquear.
As tardes já estão com cheiro úmido,
rescendendo ureia nos restolhos da mindinha.
A aragem vem subindo resfriorenta,
pintando no horizonte manchas avermelhadas,
mode o esconder do sol se indo receoso.
É outono, e o mundo tem pressa.
As gentinha rasteira inaugura a noite cricrilando.
As folhas encerraram sua dança, receosas.
Coisa da maior desimportãncia se anuncia.
Coã já deu presságio agourento longe,
mas a seriema recém casada informa
que o mistério da noite se instala escurando.
Não há temor na matinha nem querelas,
só o estalido de pau que endireita o prumo.
-No escurão da noite, vurto divurga o medo!
Mas não tem pouso quando évem o sol.
Em nascendo desanuvia todo arreceio.
- É isso Seu! Me arrecolho que o amanhã é branco!
(As palavras entontecem a fala cedo)

domingo, 27 de março de 2016

Outono

Ah! As manhãs de outono quando évem,
trazendo as primeiras baforados do minuano
e no ar um gosto amargo de erva mate, entontece.
Nas folhas, respingos que tecem luzes matinais,
anunciam noites frientas, filhas de dias curtos.
É outono e o vim-vim na embaúba sabe;
Seu canto-choro vem bulindo com o dentro,
junto à cama de araras que passam rumo à serra,
que a minha avó semeou em seu quintal,
para além de um córrego lambarizento.
Naquele lugaroso que ela inventou devagar,
achei minhas memórias em uma gaveta velha
que rescendia a livros guardados, amarelecidos.
Bem cedo ela escrevia beijus numa porta
reluzindo sob o café soltando seu fumo.
Sendas míticas iam se formando à margem da cerca
coberta de marias-preta que nunca morriam,
porque o bem-te-vi célere semeava cagando.
Foi que dei começo às minhas lições de musgo
dando ponto ao meu olfato para o sórdido.
Aprendi a seguir formigas quando cortam
e sua fala tic-tic, que tem serventia inútil.
-Uédson! Ela chamava amanteigando o beiju.
(Sua fala, ela inventou mode chamar menino).
Deu nome as coisas que ninguém possuía,
embalando com a cantilena do bem-te-vi do cú cagado.
(que só se usava em emergência de sono).
Todo dia era um idílio de simplicitudes novas,
criadas entre refeições olorosas que avisavam cheiro.
Tenho isto bem encerrado, em memórias vivas
que se não são veras, inventei por imitação
aprendidas ao pé da serra da minha avó Bela,
(nome que ela recebeu por ofício de ternura)
sempre outono nela, sempre revividas.

sábado, 26 de março de 2016

Quintal

Há quem eleja palavras por qualidade,
dando a umas serventia de restolho;
Divirjo: o rebotalho me tem em valia valiosa.
Me formei em garimpeiro de monturos,
de estradinhas bordeadas de capim seco,
onde o vim-vim esconde os ovos pintadinhos.
Cantador de coisas ínfimas, me atinei para chãos,
para o rebuliço do vento na restinga do banhado.
Me alteram o cheiro da areia depois da chuva rala,
o chilreio do Maria-ferrugem aninhando.
Me entorpeci no cerrado por suas tardes,
onde um pau seco grita seu oco queimado.
Emudeci com o corre-corre do tambiú no reguinho,
que de tão silente amarelou uma tarde outonal.
Um aluvião abriga sonhos de pedregulhos andarilhos,
cheios de antigas historias de areia e gravetos,
viajantes de paragens onde não há rastro de gente.
Destas miudezas mínimas me tornei vassalo,
coisas inomináveis, coisas de nobre inutilidade.
O que não existe invento, o que não invento calo,
porque quando évem, em silencio barulhoso,
desses que faz a seriema assuntar a quietude,
me faz bordejar numa lembrança matagal,
de um tempo em que eu meninava uma nuvem.
Naquele tempo, diante da serra infantil
que nasceu no quintal de minha avó,
foi que aprendi a desvalia, o inútil,
o cheiro de palavras emboloradas,
o valor do desvario quando embeleza,
que ela guardava num saquitel amarelento,
com lições de vida e morte.
Senhora das estações, tinha tenências para ventos
e sabia de cor outonos e agostos.




sexta-feira, 25 de março de 2016

Monólogo do Vardi

Tenho pra mim seu,
quessimundo tá em desgoverno adiantado.
Na boleia vai um sem eira,
que não se pinge estremecimento
nem com o agudo de gentes derramadas em estrada.
Tenências ninguém carece mais.
E a maleza abunda o corrido
ingual chuva que desaloja tatu.
Vou que os dontonte iam era formando o transcorrido em pressa.
Queimando, cortando pau, barricando rio, sem assomo nem pejo.
Povaréu vem vivendo feito bicho, mas bicho mesmo nem rastro.
Menino agora tem mais maleza que a urutu.
Assombração era im antes que formava,
agora marelou e se escondeu no medo,
que o modo dele agora é medrar o bem em mal.
Não regula mais nada, tudo entortou.
Passarinho canta por lonjura, que tem muito som no mundo.
O silêncio rareou numa carestia deserdada, não tem pouso.
Trasmudaram os tempos e as estações aluaram.
O vento persegue seu rabo altadas da noite
e esquece até a hora de seu turno ventoso.
Ninguém divurga nada nesse trasmundo.
É tudo desórtico, não tem procedência certeira,
évai num trote descavalado e sem rumo.
Donde se dá que nenhum se avizinha,
cada um assunta seu imbigo gordo.
-É seu! Sua graça desconheço proposital,
é em carecência de prosa que discorro,
mas em seu turno, empresto o ouvido,
mode assuntar seu desconforto.
Tresdigo e redigo,
têm tenência? tem nadas...

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O elevador

Ao pé da besta-fera jaz seu Miro empombado.
Traz nas corcovas da cara,  um desconsolo vexado,
vergonhoso de ter perdido a mínima mulher,
que aboletou-se à caixa de metal e sumiu.
Verdade que já pensara em perde-la im antes,
mas a idade, os filhos e netos barganham o querer.
-A gente vai garrando gosto nestrem sô!
Adivinhei um mineiro no amuo escapante,
os cafés, as prosas idas e vindas, as teimas,
tudo ali pendurado no chapéu desesperançoso.
A civilidade matuta empacou-me de saber o corrido,
mas espichei uma dúvida do malogro,
tamanho o desassossego do homem.
Évem o bicho vem descendo barulhoso,
terríveis novas descambaram diligentes.
Ao tocar a campainha, espanto e um salto:
A mulher, medindo uma saca de café sortido,
trazia no sorriso desdém e superioridade
que agora superaram anos de altivez do cuiudo.
Dentro do monstro de lata muito polida,
ela era a garantia de salvação e humildade,
vez que o pavor  castrou ao Miro a intrepidez.
-Amansei burro brabo; Inté onça cacei,
mas o diabo de "levador" assenta não sô!
Confessou firmando o garrão mode queda.
- Cabra froxo! Assanhou dona Batica,
vingança boa que ela sorria se ria.
Quando a bocarra regurgitou o Miro,
não cogitou salvar a pobre do tinhoso metálico.
Alçou longe seu passo-légua rumo à sua honra,
desencilhada na porteira da modernidade.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Bolicho

No ar um cheiro de fumo e pão dormido
que se mistura ao do jornal embrulhoso.
Grandes prateleiras guarnecidas de escassez
deferencia o piso de madeira,
lhenado de sacos de farinha a granel,
sempre batizadas por um bocado à boca.
Cachaça, vermute, raizada e conhaque;
eram o bem maior da guarda de Fogoió,
sempre encostado ao balcão, media espaçoso
a fundeza daquele mundo besta que passava.
Menino menor que a bicicleta escanchava,
outro sacolejava nas ancas da mãe criança,
e um homem velho media a largura dos passos.
O bolicho era uma janela para o além;
alem das coisas, das caras, além do chão.
Cá dentro pode-se ver o longe-longe
que ninguém conta e nem assoma.
Fogoió assiste o passante e o corrente
não se movendo muito mode o calor.
Armado com um cacho de buriti seco,
espanta moscas funcionárias que lhe acometem.
O bolicho é o mundo? O mundo é o bolicho?
Não sabe nem ensina: Serve o freguês indês.
Um gole, uma carranca e um: - Será que chove?
- Sei não que três antonte deu uma aguada danada!
Revés e entrevés, segue a prosa rumo à morte,
que assunta o assunto bebericando desde o mudalém.
Talagada mais e os santos jazem todos bêbados.
É hora de fechar, mas os vãos denunciam o sol poente.
Um cheiro de comida corre a rua aos gritos,
anunciando que o dia abriu a porta da noite
e deixou entrar o gozo de descanso e silencio.
Vê que o mundo é o mesmo corrido vagaroso?
Mas no de dentro é que se sabe o quanto resta,
pera fechar a porta sem fresta nem réstia,
nem gentes, nem dentes, só o oco do mundo,
mundo novo, de onde não se tem notícia,

onde o bolicheiro não vende nem mente verdade.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Usina

Tenho pena do canavial quando deita,
sua feiura esplêndida atordoa o verde.
Em suas ruelas arrumadas a morte
montou seu acampamento e espera.
Gentes sórdidas comandam seu doce,
organizam seu bagaço em montes
e esperam o jorro volátil que fascina.

Tenho medo do canavial quando brota.
Sua folha cheia de tanta ganância
faz do eito um campo mesquinho,
nem a saúva pode com seu pleito.
Aviltaram a doçura da caiana,
sujaram os rios com seu sangue.

Tenho pena da cana quando mói.
Em seu remoer e queimar infinito,
queima consigo a gentinha rasteira
o povinho que vive em baixo,
povinho alado, povinho pardo.

Tenho pena da cana quando queima.
Em seu fragor, o progresso se avoluma
em montões de cinza e pó inúteis,
que na distância de um olho espreita
a anta quando sai pra beber,
o bandeira, o tatu, o mateiro.

Tenho pena da cana quando amontoa
índios, brancos e negros em galpões,
a espera de sua porção de açúcar e sal.

Tenho pena da cana quando avulta.
E seus senhores encastelados,
sonham com outro pau a queimar,
outra sombra, outra semente, outro regato,
insignificantes, inúteis e que não rendem.

Tenho pena da cana quando lucra
e seu dom de adoçar corroí como ácido,
o chão, o mato, a lua quando vem espiar.

Tenho pena da cana e sua nobreza
agora instrumento de açoites e pejo.

Tenho pena do João dos canaviais,
do Cabral, do Rosa, do Rego
que já não vemos mais.


sábado, 25 de julho de 2015

Joalheiro

Há por certo muitos Raimundos,
mas um, notório por não existir de fato
posto que inventado, sua voz é fado.
E deste que falo é sem rima
por sobrenome Batista, prima
barbear menos, que por contar causo.
Em Pedro Gomes, reza que assistia
seu ofício de navalha, tesouro e pia
embora montasse melhor em inventos,
com cela e arreios, nos lombos da fantasia.
Havia quem lhe cresse a porfia, como eu,
menino de antanhos , camafeu que ouvia.
Era por sombra de antigamentes que se dava
causo de onça assombrosa que morreu
ou lobisomem, - E inté arma penada!
Dai quem temia era o menino eu
que no embaixo, assuntoso idéiava.
Em seu confessório tosquiava gentes
que ovelhavam aquele mundaréco,
sempre planejando escapadas capitais,
posto que eram sonhos e venturas
que merejavam as ruelas abissais.
Eu lá, meninava um ouvido desconfiado,
aprendendo a embolorar palavras
que ainda hoje, daquele tempo alijado
recolho pedras de antigas lavras.