Sou inimigo de rimas
Como sou de cismas,
Mesmo assim peguei meu cinzel,
Meu martelo e minha crina
Para escrever um poema
Que seja visto de cima.
Desci ao vale da morte
Ao norte, onde pedra é rima,
Onde a palavra estanque
Me arranque desta Turmalina.
Onde a métrica é passaporte
E é torpe tudo que se ensina.
Medra no perau profundo
A má sorte, que destarte,
É a minha talinga fina.
O casuísmo é o consorte
A régua é a minha asa,
Minha casa, minha sina.
Perdi-me em seus estames
Sedimentei-me em água de mina
Perdoem-me os poetas
Pois não sou um esteta
Aquiescer é o que me resta
Não presta a minha rima.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Memória de mim.
Esse lugar, essa estranheza
que nem existe de fato
tem minha historia, meu fato
pra eu não me esquecer de mim,
faço disto meu ato.
Faço desta coisa tosca
desse lugar sem vida
minha memória esquecida
minha cama de espantos
minha voz esmaecida.
Quando abro esta porteira
e entro nesse meu quarto
é como se fosse um parto
daquilo que de tanto beber
já estou bem cheio e farto.
que nem existe de fato
tem minha historia, meu fato
pra eu não me esquecer de mim,
faço disto meu ato.
Faço desta coisa tosca
desse lugar sem vida
minha memória esquecida
minha cama de espantos
minha voz esmaecida.
Quando abro esta porteira
e entro nesse meu quarto
é como se fosse um parto
daquilo que de tanto beber
já estou bem cheio e farto.
Brenha.
Lidar com palavras é mentir-se,
é investigar espinhais, é coser-se
e descoser-se de juazeiros.É entornar o querer,
é derramar-se as entranhas na pedra quente.
é matéria de ferver-se em panela de barro
Em que o barro já moldado, já queimado
queima e molda de novo o novo.
Vestir-se de palavras é besuntar-se de estradas,
é a lida do vaqueiro de couros nas brenhas,
é oficio de seringueiro, de pantaneiro.
Mover-se na escuridão de verbos fugidios
e domar idéias que são réstias de luz
sobre uma folha seca adormecida,
é ver beleza no sórdido, é gozar com telúricas.
Quando eu era menino, comi uma casinha de barro
feita por um besouro flamejante e sonoro.
Tinha gosto de antigamentes, de historias.
Guardo no ventre de minhas memórias
este sabor terreal, esse tom de infinitudes.
Nesse tempo eu era domado por palavras,
Eu não as tinha na língua, mas as sorvia
sequioso como se fora sorvete de groselha.
Aquele menino que vai olhando pra trás
sou eu mesmo quando era sábio,
era profundo como o poço de Jacó.
agora sou raso, hiante.
Aquele menino que não me reconhece nele,
admirado com minha sua estultícia vai sumindo.
Entre nós há um abismo de idéias e nomes.
Ele leva consigo o segredo das minhas palavras
O mistério de toda poesia e sensações d’alma.
Fico só, em meio a xique-xiques e um Juá interrogativo,
estou entrelaçado por caraguatás verbais...
é investigar espinhais, é coser-se
e descoser-se de juazeiros.É entornar o querer,
é derramar-se as entranhas na pedra quente.
é matéria de ferver-se em panela de barro
Em que o barro já moldado, já queimado
queima e molda de novo o novo.
Vestir-se de palavras é besuntar-se de estradas,
é a lida do vaqueiro de couros nas brenhas,
é oficio de seringueiro, de pantaneiro.
Mover-se na escuridão de verbos fugidios
e domar idéias que são réstias de luz
sobre uma folha seca adormecida,
é ver beleza no sórdido, é gozar com telúricas.
Quando eu era menino, comi uma casinha de barro
feita por um besouro flamejante e sonoro.
Tinha gosto de antigamentes, de historias.
Guardo no ventre de minhas memórias
este sabor terreal, esse tom de infinitudes.
Nesse tempo eu era domado por palavras,
Eu não as tinha na língua, mas as sorvia
sequioso como se fora sorvete de groselha.
Aquele menino que vai olhando pra trás
sou eu mesmo quando era sábio,
era profundo como o poço de Jacó.
agora sou raso, hiante.
Aquele menino que não me reconhece nele,
admirado com minha sua estultícia vai sumindo.
Entre nós há um abismo de idéias e nomes.
Ele leva consigo o segredo das minhas palavras
O mistério de toda poesia e sensações d’alma.
Fico só, em meio a xique-xiques e um Juá interrogativo,
estou entrelaçado por caraguatás verbais...
domingo, 2 de dezembro de 2012
Famélico.
Estou vazio como um sonho esquecido
minha mãe é a escuridão
meu pai o éter.
Não sei qual é minha mão direita
não conheço minha mão esquerda.
De onde venho não tenho memórias
pra onde vou não sei o caminho.
Idiotas com diplomas apontam direções,
dão-me receitas curativas.
Eles, mesmos, os idiotas!
Tateiam na escuridão .
Não sei se estou nu ou vestido
estou apenas, e não sou guiado por nada.
Sim, sigo meu ventre,
estou preso aos meus intestinos.
Minha sobrevivência é a mais importante
de todas as coisas que tenho.
Não tenho nada, seguro-me firmemente
no desejo desesperado de viver
e à incerteza da morte tão certa.
-Porque você me olha e balança a cabeça?
-Estúpido! Acaso sabe pra onde vai?
-Não! Você apenas acredita que sabe!
Me deixe ser esta estranheza
e se embriague na sua própria.
Vamos continuar... trabalho, família,
comida, ódio, amor, disputas,
perdas, ganhos, choro, riso...
É o que somos.
Não somos nada.
-Desculpe!
Se você acha que é, apenas continue.
Não olhe pra traz. Não me veja.
Não me estenda a mão,
a escuridão nos envolve calmamente.
Compre seu carro, construa sua casa
faça alguma coisa grandiosa
pra não ser esquecido depois de apodrecer.
minha mãe é a escuridão
meu pai o éter.
Não sei qual é minha mão direita
não conheço minha mão esquerda.
De onde venho não tenho memórias
pra onde vou não sei o caminho.
Idiotas com diplomas apontam direções,
dão-me receitas curativas.
Eles, mesmos, os idiotas!
Tateiam na escuridão .
Não sei se estou nu ou vestido
estou apenas, e não sou guiado por nada.
Sim, sigo meu ventre,
estou preso aos meus intestinos.
Minha sobrevivência é a mais importante
de todas as coisas que tenho.
Não tenho nada, seguro-me firmemente
no desejo desesperado de viver
e à incerteza da morte tão certa.
-Porque você me olha e balança a cabeça?
-Estúpido! Acaso sabe pra onde vai?
-Não! Você apenas acredita que sabe!
Me deixe ser esta estranheza
e se embriague na sua própria.
Vamos continuar... trabalho, família,
comida, ódio, amor, disputas,
perdas, ganhos, choro, riso...
É o que somos.
Não somos nada.
-Desculpe!
Se você acha que é, apenas continue.
Não olhe pra traz. Não me veja.
Não me estenda a mão,
a escuridão nos envolve calmamente.
Compre seu carro, construa sua casa
faça alguma coisa grandiosa
pra não ser esquecido depois de apodrecer.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
PIÁU
Sua alcunha nem é nome de homem.
Vem de seus habitos, bardoso que é
remansoso, vem varzeando a vida.
Carranca, lingua preguiçosa, barba de barrancas.
É dado a interjeições aquosas.
Conta historias de bichos e peixes,
Todos conhecidos, todos catalogados.
Queixada, lambari, poita que se perdeu
Mulher escanchada em porteira: meio riso.
Do canto do olho vermelho vem um deleite,
memórias de aventuras de barra de saia.
Mas logo encharca de novo as palavras
com a água barrenta, espera silenciosa e...
Pacú, piapara, jurupencem eh eh eh..
Estica os beiços e sorve a barranca inteira.
Ele pesca até nos guardados do pensamento.
Piáu! Ele nem atende mais pelo próprio nome,
mas reconhece logo o chamado ribeirinho.
Piáu! É título, é apelido, é sua historia.
-Eu sô sozinho! Se assegura de sua força.
Mas no estofo, é solidão e um embornal de medos.
Filhos tem, mas se foram.
Amigo de bichos e bicho homem.
É homem, é peixe, é várzea,
É um Piáu ensejando gente.
Vem de seus habitos, bardoso que é
remansoso, vem varzeando a vida.
Carranca, lingua preguiçosa, barba de barrancas.
É dado a interjeições aquosas.
Conta historias de bichos e peixes,
Todos conhecidos, todos catalogados.
Queixada, lambari, poita que se perdeu
Mulher escanchada em porteira: meio riso.
Do canto do olho vermelho vem um deleite,
memórias de aventuras de barra de saia.
Mas logo encharca de novo as palavras
com a água barrenta, espera silenciosa e...
Pacú, piapara, jurupencem eh eh eh..
Estica os beiços e sorve a barranca inteira.
Ele pesca até nos guardados do pensamento.
Piáu! Ele nem atende mais pelo próprio nome,
mas reconhece logo o chamado ribeirinho.
Piáu! É título, é apelido, é sua historia.
-Eu sô sozinho! Se assegura de sua força.
Mas no estofo, é solidão e um embornal de medos.
Filhos tem, mas se foram.
Amigo de bichos e bicho homem.
É homem, é peixe, é várzea,
É um Piáu ensejando gente.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Aroeira
Conheci um fazedor de poesia.
Ele ia fazendo na prosa,
ia beradiano um assunto
vortiano, cismando e pimba!
Soltava aquela risada por trás dos dentes
enquanto no miúdo dos olhos me assuntava.
Lá no oco, envinha um certo desdém,
Medindo-me a mim, pachorra,
que nem cachorro que acuou carro.
(trotinho de dever cumprido)
Dizia, com a idéia lá no mundão sem fundo:
-Pessoar estudado! (pausa pra cuspir o fumo)
Mas da vida é chá de toco!
“não desvenda o por dentro,
o que tocaia nos rim, lá no figo”.
Eu cá, estúrdio, vejo romance.
Em riba do meu caixotinho
Boto medida, analiso, classifico.
Lida de boiada, manhas de burro bardoso...
Tudo contado bem miudinho.
Serventia de raiz de Sansão,
resguardo, malassombro.
Tudo investigado na ciência.
Eu assuntando auspicioso,
entre um gole de chimarrão
e uma análise morfológica...
Estanque no peito, um deleite.
Vou sorvendo os verdes, o amargo,
O esperançoso, o aflitivo, a seca,
A enchente, a derrama da farinha,
cavalo redomão que deu coice...
Tudo bem escrito e metrificado
no rosto recalcitrado, na pele rugosa
no poema homem, escanchado
numa aroeira domada em cavalete.
Ele ia fazendo na prosa,
ia beradiano um assunto
vortiano, cismando e pimba!
Soltava aquela risada por trás dos dentes
enquanto no miúdo dos olhos me assuntava.
Lá no oco, envinha um certo desdém,
Medindo-me a mim, pachorra,
que nem cachorro que acuou carro.
(trotinho de dever cumprido)
Dizia, com a idéia lá no mundão sem fundo:
-Pessoar estudado! (pausa pra cuspir o fumo)
Mas da vida é chá de toco!
“não desvenda o por dentro,
o que tocaia nos rim, lá no figo”.
Eu cá, estúrdio, vejo romance.
Em riba do meu caixotinho
Boto medida, analiso, classifico.
Lida de boiada, manhas de burro bardoso...
Tudo contado bem miudinho.
Serventia de raiz de Sansão,
resguardo, malassombro.
Tudo investigado na ciência.
Eu assuntando auspicioso,
entre um gole de chimarrão
e uma análise morfológica...
Estanque no peito, um deleite.
Vou sorvendo os verdes, o amargo,
O esperançoso, o aflitivo, a seca,
A enchente, a derrama da farinha,
cavalo redomão que deu coice...
Tudo bem escrito e metrificado
no rosto recalcitrado, na pele rugosa
no poema homem, escanchado
numa aroeira domada em cavalete.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Temíxtocles
Bigodinho fino por riba dos beiços,
cabelo besuntado, partido no meio,
aquela calça de tergal e chinelas,
um estalar de língua sestroso.
-Seu bigode! Tem pão?
Chap, chap, chap, é a chinela quem responde
entre dentes e um coçar nos quartos:
-Tem fi dum a égua!
Não gosta da alcunha.
O armário de pães é todo de vidro,
sobe logo aquele cheiro antigo,
cheiro de menino, cheiro de bolicho.
Raimundo Salustiano nome de pia,
mas por adoção literária “Temíxtocles”.
Homem feito em cordéis e novelas,
com idéias da capital, no meio dos bugres.
Maria-mole, suspiro, canudinho,
fumo de rolo, corda, piaçava, seu patrimônio.
Jornal é pra embrulho e desinformação.
Amores se os tinha, embaixo da tarimba
ninguém assomava, mas era notícia.
Fazer medo era seu ofício de poeta,
meninos amansava era com sete belo.
Seu segredo: o cheiro de bacurau choco,
cultivado em banhos dominicais,
com muito sebo no cabelo e leite de rosas.
Elogio era acertar a pronúncia:
-Temíxtocles!
Ele amolengava, e chiava um risinho baiano.
(tinha artéria filosofal dentro da cabaça)
Ma isso era no escondido, nos guardados.
Lá por fora era aquele tufo de cabelo fora da camisa,
um mascadinho de fumo e a inhaca.
No mais, piçarra de solidão e desafeto.
Acho que por medo de rebuliço de saia.
Atiçava umas piscadelas, mas desdizia:
-Cisco no olho ara moleque! É o cipó!
E era o magote correndo e gritando:
-Seu bigode, Seu bigode catinga de bode!
cabelo besuntado, partido no meio,
aquela calça de tergal e chinelas,
um estalar de língua sestroso.
-Seu bigode! Tem pão?
Chap, chap, chap, é a chinela quem responde
entre dentes e um coçar nos quartos:
-Tem fi dum a égua!
Não gosta da alcunha.
O armário de pães é todo de vidro,
sobe logo aquele cheiro antigo,
cheiro de menino, cheiro de bolicho.
Raimundo Salustiano nome de pia,
mas por adoção literária “Temíxtocles”.
Homem feito em cordéis e novelas,
com idéias da capital, no meio dos bugres.
Maria-mole, suspiro, canudinho,
fumo de rolo, corda, piaçava, seu patrimônio.
Jornal é pra embrulho e desinformação.
Amores se os tinha, embaixo da tarimba
ninguém assomava, mas era notícia.
Fazer medo era seu ofício de poeta,
meninos amansava era com sete belo.
Seu segredo: o cheiro de bacurau choco,
cultivado em banhos dominicais,
com muito sebo no cabelo e leite de rosas.
Elogio era acertar a pronúncia:
-Temíxtocles!
Ele amolengava, e chiava um risinho baiano.
(tinha artéria filosofal dentro da cabaça)
Ma isso era no escondido, nos guardados.
Lá por fora era aquele tufo de cabelo fora da camisa,
um mascadinho de fumo e a inhaca.
No mais, piçarra de solidão e desafeto.
Acho que por medo de rebuliço de saia.
Atiçava umas piscadelas, mas desdizia:
-Cisco no olho ara moleque! É o cipó!
E era o magote correndo e gritando:
-Seu bigode, Seu bigode catinga de bode!
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Cavalinho
Carroça, vermelho desbotando
parou na porta da venda parda.
sobre seu estrado, papelão.
Cavalinho pensa em seus arreios.
Mascarado, uma pata erguida
rumina uma cisma de tresantontem.
Seu rabo automático espanta
idéias e lampejos sonolentos.
Sob suas ventas a placa:
“Carvão dez real”
Não tem mais graça.
Lá dentro um estalo de pinga.
-arré fiadaputa!
Meia talagada demais de cedo.
Cavalinho meneia o cabeção moço, mas desistido.
O outro evém la de dentro zureta.
Braguilha quase aberta,
Chinela desbeiçada, mas no eito.
No peito estampa de política:
“Justiça, igualdade e responsabilidade”.
Pangaré não se engana com açúcar,
mas também não vota. –Diantanada!
Prefere andar na vazante.
Puxa o mundo nos lombos.
Mas não atina, é cavalo.
parou na porta da venda parda.
sobre seu estrado, papelão.
Cavalinho pensa em seus arreios.
Mascarado, uma pata erguida
rumina uma cisma de tresantontem.
Seu rabo automático espanta
idéias e lampejos sonolentos.
Sob suas ventas a placa:
“Carvão dez real”
Não tem mais graça.
Lá dentro um estalo de pinga.
-arré fiadaputa!
Meia talagada demais de cedo.
Cavalinho meneia o cabeção moço, mas desistido.
O outro evém la de dentro zureta.
Braguilha quase aberta,
Chinela desbeiçada, mas no eito.
No peito estampa de política:
“Justiça, igualdade e responsabilidade”.
Pangaré não se engana com açúcar,
mas também não vota. –Diantanada!
Prefere andar na vazante.
Puxa o mundo nos lombos.
Mas não atina, é cavalo.
O encontro
Encontrei a poesia,
o lirismo, a verdade,
o absoluto.
Encontrei Deus.
Sob denso matagal
um rego d’água cochicha,
vestido de areia branca.
No barranco,
bosta de minhoca arribava.
Em maravilhoso surround
um passarinho amarelo profetizava.
-Furuli! Furuli!
Coisa de muita lonjura, mas certeiro.
Uma pedra negra vestida de limbo
mudou-se para aquele canto, e ele mesmo
o limbo era densa floresta.
Carazinhos se escondiam no lodo.
Bambuzeiro, uma perereca de butuca,
embaúba e um rola-bosta carrancudo.
Maravilhosa desordem,
perfeito emaranhado de cipós,
talos e troncos cobertos de viadutos para formigas pretas.
Um besouro obtuso varria o quintal.
Toscanejando num pau podre, sua janela,
um coró cabeçudo reluzia.
Havia uma certeza:
Não somos necessários.
A consciência embrutece.
Retornarmos ao pó talvez seja nossa única grandeza.
Preciso ver os emails.
o lirismo, a verdade,
o absoluto.
Encontrei Deus.
Sob denso matagal
um rego d’água cochicha,
vestido de areia branca.
No barranco,
bosta de minhoca arribava.
Em maravilhoso surround
um passarinho amarelo profetizava.
-Furuli! Furuli!
Coisa de muita lonjura, mas certeiro.
Uma pedra negra vestida de limbo
mudou-se para aquele canto, e ele mesmo
o limbo era densa floresta.
Carazinhos se escondiam no lodo.
Bambuzeiro, uma perereca de butuca,
embaúba e um rola-bosta carrancudo.
Maravilhosa desordem,
perfeito emaranhado de cipós,
talos e troncos cobertos de viadutos para formigas pretas.
Um besouro obtuso varria o quintal.
Toscanejando num pau podre, sua janela,
um coró cabeçudo reluzia.
Havia uma certeza:
Não somos necessários.
A consciência embrutece.
Retornarmos ao pó talvez seja nossa única grandeza.
Preciso ver os emails.
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
Experiência
Amanheceu completamente
e o mesmo sol veio descansar
em minha janela desbotada
de seu ofício de quarar
lençóis e fronhas que de ontem
destilam sonhos amarelados.
Lanço mão aos esquecidos
em minha gaveta emperrada
uma fita cassete e uma caneta rota
ainda se tocam fraternalmente.
Dentro, alguma canção engasgada
guarda verbos antigos
desbotados pelo desuso.
Eu, como a jaqueira sonolenta,
Envileço.
Ela é como um ferro a brasas
bonito, serve pra decorar.
Jaqueira estúpida.
Beijos e rubores juvenis
sobem com uma brisa
de odores fugidios.
Onde foi parar aquele viço,
aquele gosto de aventura.
Acho que já aprendi tudo.
A novidade é enfadonha.
Séculos e séculos de experiência
me cansam mortalmente,
poitei na curva,
espero o último rebojo.
e o mesmo sol veio descansar
em minha janela desbotada
de seu ofício de quarar
lençóis e fronhas que de ontem
destilam sonhos amarelados.
Lanço mão aos esquecidos
em minha gaveta emperrada
uma fita cassete e uma caneta rota
ainda se tocam fraternalmente.
Dentro, alguma canção engasgada
guarda verbos antigos
desbotados pelo desuso.
Eu, como a jaqueira sonolenta,
Envileço.
Ela é como um ferro a brasas
bonito, serve pra decorar.
Jaqueira estúpida.
Beijos e rubores juvenis
sobem com uma brisa
de odores fugidios.
Onde foi parar aquele viço,
aquele gosto de aventura.
Acho que já aprendi tudo.
A novidade é enfadonha.
Séculos e séculos de experiência
me cansam mortalmente,
poitei na curva,
espero o último rebojo.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Canção outonal
Em agosto as folhas
amarelam tardes
e a esperança sobe os troncos,
enche de algazarra os caminhos,
alvoroçando as saias de antigas trilhas.
Por entre cãs de palha amarelada
o vento grita gravetos
e o capim derriça seu estio.
Toda a algazarra do mundo
agarra-se em significados frívolos.
Um trator vermelho encolhe seu dorso
enquanto pica-paus tardios lhe afagam a ferrugem.
flores antigas dançam
e seus estames perfilados por varizes
atinam para adubo,
seguidos por talos, folhinhas e areia
cirandam sua canção outonal.
Uma larva de cara branca
vem espiar o oco do dia.
Sou eu! Todo erval,
nascido entre orelhas de pau,
marias-pretas e melõezinhos de barriga inchada.
Um olho-de-boi aquiesce minha discrepância.
Vem a noite.
amarelam tardes
e a esperança sobe os troncos,
enche de algazarra os caminhos,
alvoroçando as saias de antigas trilhas.
Por entre cãs de palha amarelada
o vento grita gravetos
e o capim derriça seu estio.
Toda a algazarra do mundo
agarra-se em significados frívolos.
Um trator vermelho encolhe seu dorso
enquanto pica-paus tardios lhe afagam a ferrugem.
flores antigas dançam
e seus estames perfilados por varizes
atinam para adubo,
seguidos por talos, folhinhas e areia
cirandam sua canção outonal.
Uma larva de cara branca
vem espiar o oco do dia.
Sou eu! Todo erval,
nascido entre orelhas de pau,
marias-pretas e melõezinhos de barriga inchada.
Um olho-de-boi aquiesce minha discrepância.
Vem a noite.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
Agosto
Já é quase agosto
e tudo já sabe seu tempo.
Tempo de se medir
a grandeza das coisas ínfimas.
O chilreio do pardal nas copas quase sombra,
o crepitar do capim já quase seco.
É mês de agosto e todo pau seco já sabe,
todos os viventes. A pedra, a gia, o calango,
todos já sentem o hálito frio do mês de agosto.
Os mourões, o gado, a lagoa pensativa espera.
Os pequenos arbustos tecem folhas amarelas,
enquanto formigas doidas se cumprimentam.
É em agosto que as coisas empoemam
e em minha casaca um velho menino desperta
para cheirar o dia e comer as estradas antigas.
A profundidade me alcança como orvalho,
me embrenho em sua densa névoa
de lanpejos, perfumes e texturas memoriais.
O mês de agosto me consome e me renova.
Tenho esperanças inacabadas.
Touceiras de palha, casa de barro.
Um besouro atleta sai de seu olho telúrico.
Deve ser dia de casamento de raposa,
Chuva rala e sol nubente namoram no horizonte.
Queria que nunca mais acabasse,
Que o mundo terminasse em agosto.
e tudo já sabe seu tempo.
Tempo de se medir
a grandeza das coisas ínfimas.
O chilreio do pardal nas copas quase sombra,
o crepitar do capim já quase seco.
É mês de agosto e todo pau seco já sabe,
todos os viventes. A pedra, a gia, o calango,
todos já sentem o hálito frio do mês de agosto.
Os mourões, o gado, a lagoa pensativa espera.
Os pequenos arbustos tecem folhas amarelas,
enquanto formigas doidas se cumprimentam.
É em agosto que as coisas empoemam
e em minha casaca um velho menino desperta
para cheirar o dia e comer as estradas antigas.
A profundidade me alcança como orvalho,
me embrenho em sua densa névoa
de lanpejos, perfumes e texturas memoriais.
O mês de agosto me consome e me renova.
Tenho esperanças inacabadas.
Touceiras de palha, casa de barro.
Um besouro atleta sai de seu olho telúrico.
Deve ser dia de casamento de raposa,
Chuva rala e sol nubente namoram no horizonte.
Queria que nunca mais acabasse,
Que o mundo terminasse em agosto.
terça-feira, 24 de julho de 2012
Rei do Brejo
Buriti taludo foi pro Brejo,
sentou praça,
fincou as unhas na lama,
Buriti ficou manso.
Teceu folhagens de um verde duro,
botou cachos.
Buriti fez-se figurão.
Em seu manto de raízes,
abrigou trairinhas, carás,
e a joaninha de boca de suvela.
Buriti aprecia os beliscões do tambiú.
Brejo denso escuro de mistérios
pra olho de menino, sua casa.
Buriti empacou sem medo de poda.
Impôs-se certo ar de patrão,
estalando vez em quando seu corpo roliço.
Esbanjando força e rigidez,
Buriti tem lentos espasmos musculares
quando vêm os empurrões do vento
que enchem a água de minúsculas ondas.
Buriti administra tudo.
Até a nobilíssima e frágil embauba curva-se.
Buriti agora é Rei.
Rei do Brejo.
sentou praça,
fincou as unhas na lama,
Buriti ficou manso.
Teceu folhagens de um verde duro,
botou cachos.
Buriti fez-se figurão.
Em seu manto de raízes,
abrigou trairinhas, carás,
e a joaninha de boca de suvela.
Buriti aprecia os beliscões do tambiú.
Brejo denso escuro de mistérios
pra olho de menino, sua casa.
Buriti empacou sem medo de poda.
Impôs-se certo ar de patrão,
estalando vez em quando seu corpo roliço.
Esbanjando força e rigidez,
Buriti tem lentos espasmos musculares
quando vêm os empurrões do vento
que enchem a água de minúsculas ondas.
Buriti administra tudo.
Até a nobilíssima e frágil embauba curva-se.
Buriti agora é Rei.
Rei do Brejo.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Haikais bêbados.
Frios.
Na passarela
passa boi
passa boiada.
Explicando.
Agora tem bunda de plástico,
peito de plástico.
Tem gente de plástico.
Televisão.
Bem sabiam os de antanho,
O mundo é mesmo quadrado
e cabe na minha sala.
Brasil.
Tu és uma miragem
aos que sedentos
morrem a beira d'água.
Na passarela
passa boi
passa boiada.
Explicando.
Agora tem bunda de plástico,
peito de plástico.
Tem gente de plástico.
Televisão.
Bem sabiam os de antanho,
O mundo é mesmo quadrado
e cabe na minha sala.
Brasil.
Tu és uma miragem
aos que sedentos
morrem a beira d'água.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Uma poça d'água.
Para escrever um poema
É preciso apodrecer ideias
deixá-las fermentar nalgum desutênsílio
é preciso desapessoar-se, embrutecer,
desvicerar-se de todo conceito e forma.
Não se pode valorizar as palavras
porém, toda desimportância também é grave.
É preciso falar língua de meninos
de bêbados, de doidos sãos.
Mas há os sábios e felizes
uns Quintanas que dão ciso ao ofício.
Neles, as idéias são etéreas, translúcidas.
Dão às palavras sabor e cheiro,
até ensinam certo bem viver.
São de uma outra espécie de homens.
Sou dos desterrados, dos ciganos
um tipo de acidente, uma depressão.
Vala aberta, monte ermo, cupinzeiro.
Xícara sem asa, pote sem tampa.
Inda tenho a etiqueta do fabricante
mas os números estão se apagando.
Espero meu recall, meu upgrade.
E talvez possa dar sensatez ao vernáculo.
Se Ele me desfizer de meu limbo,
se rasgar-me as vestes e me cobrir de pó,
se de todo o coração que não tenho
entregar-lhe todas as palavras que não sei,
então pode ser que ache uma trilha,
um caminho de pedras e flores brancas,
uma poça d’água no meio da caatinga,
e possa sorvê-la como Davi em terra estrangeira,
Como Sansão sedento e esvaído depois da luta.
Espero meu Remidor furar-me a orelha
e marcar-me como sua propriedade exclusiva.
É preciso apodrecer ideias
deixá-las fermentar nalgum desutênsílio
é preciso desapessoar-se, embrutecer,
desvicerar-se de todo conceito e forma.
Não se pode valorizar as palavras
porém, toda desimportância também é grave.
É preciso falar língua de meninos
de bêbados, de doidos sãos.
Mas há os sábios e felizes
uns Quintanas que dão ciso ao ofício.
Neles, as idéias são etéreas, translúcidas.
Dão às palavras sabor e cheiro,
até ensinam certo bem viver.
São de uma outra espécie de homens.
Sou dos desterrados, dos ciganos
um tipo de acidente, uma depressão.
Vala aberta, monte ermo, cupinzeiro.
Xícara sem asa, pote sem tampa.
Inda tenho a etiqueta do fabricante
mas os números estão se apagando.
Espero meu recall, meu upgrade.
E talvez possa dar sensatez ao vernáculo.
Se Ele me desfizer de meu limbo,
se rasgar-me as vestes e me cobrir de pó,
se de todo o coração que não tenho
entregar-lhe todas as palavras que não sei,
então pode ser que ache uma trilha,
um caminho de pedras e flores brancas,
uma poça d’água no meio da caatinga,
e possa sorvê-la como Davi em terra estrangeira,
Como Sansão sedento e esvaído depois da luta.
Espero meu Remidor furar-me a orelha
e marcar-me como sua propriedade exclusiva.
Nexo
Se eu pudesse empassarava
Mas é inútil essa minha querência de bicho
sou homem me desumanizando,
coisando, estou destonando.
Quanto mais olho o torto,
mais o torto me parece torto.
Não dou sentido aos contruidos
tomo parecer no despropósito.
Um pardal idiota
fez um ninho tosco
em minha casa idiota.
Estou desentendendo.
Moscas inúteis fazem seu zunido inútil
em meu quarto inutilmente limpo.
Tenho um casal de amigos gente
que limpa sua casa todo sábado.
Tudo parece tão importante.
Eles têm líquidos azuis, em variados tons.
Imagino que sejam fluidos celestes
para assepsia de coisas e descoisas.
Conheço outro que trabalha,
tem um que estuda e planeja.
Uma está para parir, aquele foi à praia.
Outro comprou carro novo.
Um vai à igreja, o outro de férias.
Sei de um que morreu sem nome
e o nascido ganhou nome e sobrenome
Se pudesse desmanchava o feito.
Quem me dera beber um pouco de lucidez e esclarecimento.
Estou em reforma, mas não tenho planta
nem largura, nem altura, nem profundidade.
Ando oco e sem fundo.
Minha alma se descostura lentamente
apesar de as coisas estarem todas
no mesmo lugar em que deveriam.
Tudo segue seu passo
inexoravelmente sem nexo.
Mas é inútil essa minha querência de bicho
sou homem me desumanizando,
coisando, estou destonando.
Quanto mais olho o torto,
mais o torto me parece torto.
Não dou sentido aos contruidos
tomo parecer no despropósito.
Um pardal idiota
fez um ninho tosco
em minha casa idiota.
Estou desentendendo.
Moscas inúteis fazem seu zunido inútil
em meu quarto inutilmente limpo.
Tenho um casal de amigos gente
que limpa sua casa todo sábado.
Tudo parece tão importante.
Eles têm líquidos azuis, em variados tons.
Imagino que sejam fluidos celestes
para assepsia de coisas e descoisas.
Conheço outro que trabalha,
tem um que estuda e planeja.
Uma está para parir, aquele foi à praia.
Outro comprou carro novo.
Um vai à igreja, o outro de férias.
Sei de um que morreu sem nome
e o nascido ganhou nome e sobrenome
Se pudesse desmanchava o feito.
Quem me dera beber um pouco de lucidez e esclarecimento.
Estou em reforma, mas não tenho planta
nem largura, nem altura, nem profundidade.
Ando oco e sem fundo.
Minha alma se descostura lentamente
apesar de as coisas estarem todas
no mesmo lugar em que deveriam.
Tudo segue seu passo
inexoravelmente sem nexo.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Um pé de macaúba.
Sou um pé de macaúba no meio da invernada
Não se pode ver nenhum outro como eu no horizonte
Minha casca esta envelhecendo, meu tronco se curva
Aquela resistência que tinha aos ventos não é mais a mesma
Uma brisa leve me esfria e me entorta todo
Já me firo com meus próprios espinhos
E minhas folhas caem antes do tempo.
No solo posso ver cachos de ideias prematuras
Já apodrecendo sem nenhum roedor para comê-las.
Aquele cheiro acre-doce dos frutos agora não sinto mais.
Aproveito as noites de vento forte e uivo
Clamando ao Senhor das embaúbas.
O único som que ouço é o farfalhar de minhas próprias folhas.
Aquela arrogância vegetal que eu tinha
Aquele viço atrevido, cheio de espinhos novos
Se foi com os últimos pés de macaúba arrancados.
Sabiás de peito amarelo não se empoleiram mais aqui
Nem mandruvás comem mais das minhas folhas
pica-paus não vem escarafunchar corós em minha casca podre.
Ouço apenas o som de grilos a noite la embaixo.
Boa companhia os grilos, sempre procurando seus pares.
Mas eles não se importam comigo.
Nem vacas, nem burros se recolhem à minha sombra rala.
Mas já estive entre amigos, já produzi frutos doces,
Com aquela carne amarela, cheirosa.
Meninos de beira de rio vinham catar
e chupar até ficar só a dura semente.
Agora apodreço lentamente
sob um céu azul e um sol que não encantam mais.
Não se pode ver nenhum outro como eu no horizonte
Minha casca esta envelhecendo, meu tronco se curva
Aquela resistência que tinha aos ventos não é mais a mesma
Uma brisa leve me esfria e me entorta todo
Já me firo com meus próprios espinhos
E minhas folhas caem antes do tempo.
No solo posso ver cachos de ideias prematuras
Já apodrecendo sem nenhum roedor para comê-las.
Aquele cheiro acre-doce dos frutos agora não sinto mais.
Aproveito as noites de vento forte e uivo
Clamando ao Senhor das embaúbas.
O único som que ouço é o farfalhar de minhas próprias folhas.
Aquela arrogância vegetal que eu tinha
Aquele viço atrevido, cheio de espinhos novos
Se foi com os últimos pés de macaúba arrancados.
Sabiás de peito amarelo não se empoleiram mais aqui
Nem mandruvás comem mais das minhas folhas
pica-paus não vem escarafunchar corós em minha casca podre.
Ouço apenas o som de grilos a noite la embaixo.
Boa companhia os grilos, sempre procurando seus pares.
Mas eles não se importam comigo.
Nem vacas, nem burros se recolhem à minha sombra rala.
Mas já estive entre amigos, já produzi frutos doces,
Com aquela carne amarela, cheirosa.
Meninos de beira de rio vinham catar
e chupar até ficar só a dura semente.
Agora apodreço lentamente
sob um céu azul e um sol que não encantam mais.
Uma fábula sobre um vaso
Um vaso com hipóteses, com ideias
enquanto é moldado, ou na queima
ainda imaturo, um vaso nascente
enquanto seca, sob o sol de agosto
é botija já corrompida, já é vaso inútil.
Sim porque um vaso não deve pensar ou querer
Não deve sentir ou imaginar outra instância.
Um vaso aquiesce simplesmente por não ser.
Enquanto seu feitor o pinta e decora
ele se pergunta por que foi feito.
Considera seu feitio, como se pudesse.
Apesar de vaso, quer-se ente.
Estúpido vaso de coisas inúteis.
Ele vê outros vasos, uns piores, uns melhores.
Mesmo assim quer saber porque sua feitura,
não compreende a mente de seu feitor
e roga-lhe que não o faça,
porque ele sabe que em fazendo-o
um dia terá que ser desfeito,
ele não quer ser desfeito,
quer apenas desesistir.
Pensa em sua cabeça oca
que talvez se ainda fosse informe,
se fosse meramente pó, ele não seria.
E não ser deve ser um grande privilégio.
Mas nalgum lugar de sua recôndita forma
nalguma fresta, nalguma ranhura
Ele teme ofender o feitor.
E permanece em sua imobilidade.
Vaso de vasos, de estranha figura.
Vaso tosco e de pouca utilidade.
Vaso de guardar memórias esquecidas.
Vaso velho, oco, vaso deixado num canto.
enquanto é moldado, ou na queima
ainda imaturo, um vaso nascente
enquanto seca, sob o sol de agosto
é botija já corrompida, já é vaso inútil.
Sim porque um vaso não deve pensar ou querer
Não deve sentir ou imaginar outra instância.
Um vaso aquiesce simplesmente por não ser.
Enquanto seu feitor o pinta e decora
ele se pergunta por que foi feito.
Considera seu feitio, como se pudesse.
Apesar de vaso, quer-se ente.
Estúpido vaso de coisas inúteis.
Ele vê outros vasos, uns piores, uns melhores.
Mesmo assim quer saber porque sua feitura,
não compreende a mente de seu feitor
e roga-lhe que não o faça,
porque ele sabe que em fazendo-o
um dia terá que ser desfeito,
ele não quer ser desfeito,
quer apenas desesistir.
Pensa em sua cabeça oca
que talvez se ainda fosse informe,
se fosse meramente pó, ele não seria.
E não ser deve ser um grande privilégio.
Mas nalgum lugar de sua recôndita forma
nalguma fresta, nalguma ranhura
Ele teme ofender o feitor.
E permanece em sua imobilidade.
Vaso de vasos, de estranha figura.
Vaso tosco e de pouca utilidade.
Vaso de guardar memórias esquecidas.
Vaso velho, oco, vaso deixado num canto.
sábado, 20 de agosto de 2011
Os atores
Somos os atores da vez
Os outros já partiram
deixaram o espetáculo
não veem mais campos, vales
não ouvem mais o som das folhas
quando o vento as balança e caem.
Não sentem mais a textura da terra sob os pés.
As palavras não tocam mais seu íntimo.
Apagaram-se as luzes e entramos.
Acreditamos que estamos bem
Que tudo o que fazemos é necessário.
Os outros já pensaram assim, mas passaram.
Não ficou nada, nada permaneceu.
Somos os atores e espectadores de nós mesmos
a pantomima é automática.
Mas todos temos consolos e respostas,
temos boas pílulas, bons motivos.
Precisamos deles para continuar.
Há os dissidentes, os seguros,
Os que enxergam além dos olhos,
os pragmáticos, os céticos,
os que dizem: foda-se...
Os crentes, os quase incrédulos,
os que criam, os que destroem,
Os que nada sabem, os parvos
Os geniais, os cruéis, os bons, os torpes.
Os que compram e vendem esperança.
Todos com os olhos nos próprios pés.
Pais, mães, filhos, presos, soltos,
Senhorios, hóspedes, infelizes.
Todos no mesmo triste show,
Dirigidos pelo instinto desesperado de sobreviver.
Os outros já partiram
deixaram o espetáculo
não veem mais campos, vales
não ouvem mais o som das folhas
quando o vento as balança e caem.
Não sentem mais a textura da terra sob os pés.
As palavras não tocam mais seu íntimo.
Apagaram-se as luzes e entramos.
Acreditamos que estamos bem
Que tudo o que fazemos é necessário.
Os outros já pensaram assim, mas passaram.
Não ficou nada, nada permaneceu.
Somos os atores e espectadores de nós mesmos
a pantomima é automática.
Mas todos temos consolos e respostas,
temos boas pílulas, bons motivos.
Precisamos deles para continuar.
Há os dissidentes, os seguros,
Os que enxergam além dos olhos,
os pragmáticos, os céticos,
os que dizem: foda-se...
Os crentes, os quase incrédulos,
os que criam, os que destroem,
Os que nada sabem, os parvos
Os geniais, os cruéis, os bons, os torpes.
Os que compram e vendem esperança.
Todos com os olhos nos próprios pés.
Pais, mães, filhos, presos, soltos,
Senhorios, hóspedes, infelizes.
Todos no mesmo triste show,
Dirigidos pelo instinto desesperado de sobreviver.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Um balde azul
Um enorme caminhão amarelo
serpenteia por entre ingazeiros e imbaúbas indiferentes,
enquanto um vento menino derruba folhas no chão de agosto,
folhas amareladas desferem tons de verde e marrom,
preparando a cama para vermes e minhocas obtusas,
que no fim do dia veem arrumar a terra úmida.
Sinto uma saudade aguda e sem lugar de repouso.
Ela cai sobre a mesa e me toma feito ópio.
Buritis e palmeiras astutas vicejam sua esnobe figura.
Uma enorme figueira solitária ri do meu dilema.
Em seu tronco de matrona, cresce uma era teimosa.
Mas ela não se importa e brinca com o vento teimoso.
Sobre minha mesa, quatro gotas de clonazepan
cantam uma canção em semínimas pontuadas.
Estou só, ela está longe imersa em números e tabelas.
Me alegra saber que o Homem de lata e o espantalho,
Estão com ela rindo e contando historias de postergar.
É sábado, e os tons de marrom e verde do serrado
me fazem pensar nos meus filhos de um pai que não sou.
Eu os ouço gritando, rindo e correndo entre as árvores.
Olham pra minha capa vermelha e meu escudo dourado
e se sentem seguros. Estou nu e assustado,
mas finjo que posso vencer o enorme dragão.
Em seus três chifres posso ver escrito:
Cansaço, lassidão e esquecimento.
Uma mulher aparece com uma vassoura
e desarranja as folhas em pequenos montículos,
depois as lança num enorme balde azul petróleo e tampa...
Um sabiá amarelo me olha como se me visse,
depois vai embora e não se lembra mais de mim.
Sigo, como quem sabe onde vai...
serpenteia por entre ingazeiros e imbaúbas indiferentes,
enquanto um vento menino derruba folhas no chão de agosto,
folhas amareladas desferem tons de verde e marrom,
preparando a cama para vermes e minhocas obtusas,
que no fim do dia veem arrumar a terra úmida.
Sinto uma saudade aguda e sem lugar de repouso.
Ela cai sobre a mesa e me toma feito ópio.
Buritis e palmeiras astutas vicejam sua esnobe figura.
Uma enorme figueira solitária ri do meu dilema.
Em seu tronco de matrona, cresce uma era teimosa.
Mas ela não se importa e brinca com o vento teimoso.
Sobre minha mesa, quatro gotas de clonazepan
cantam uma canção em semínimas pontuadas.
Estou só, ela está longe imersa em números e tabelas.
Me alegra saber que o Homem de lata e o espantalho,
Estão com ela rindo e contando historias de postergar.
É sábado, e os tons de marrom e verde do serrado
me fazem pensar nos meus filhos de um pai que não sou.
Eu os ouço gritando, rindo e correndo entre as árvores.
Olham pra minha capa vermelha e meu escudo dourado
e se sentem seguros. Estou nu e assustado,
mas finjo que posso vencer o enorme dragão.
Em seus três chifres posso ver escrito:
Cansaço, lassidão e esquecimento.
Uma mulher aparece com uma vassoura
e desarranja as folhas em pequenos montículos,
depois as lança num enorme balde azul petróleo e tampa...
Um sabiá amarelo me olha como se me visse,
depois vai embora e não se lembra mais de mim.
Sigo, como quem sabe onde vai...
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