terça-feira, 23 de julho de 2013

Insônia

O rego d'água quando corre riachoso
pensa em grotões anchos, prenhes de carás.
Lá na légua ele vai se amontoando
em aguarias de muita chuva.
Vai ajuntando lama de folhas
e emburacando um corgo.
Seu ofício é preencher, ajuntar,
apodrecer paus e semear tuviras.
Um rego d'água permanece.
Sua desimportância é maior que o Paraná.
mas é debaixo de sua saia que nascem
os caudalosos, os peixosos .
Tem olho pequeno e nome engraçado:
Batalha, Ceroula, Corguim, Lambari!
Sempre merejando sua insignificância
vai dando nomes e barranco pros graúdos.
Só crianças e passarinhos gostam dele.
Da pra enterrar o pé na areia,
encher o papo e chutar água.
Sapo também fez seu girau
pra reclamar gia na boca da noite.
Evém vindo ela botar rede.
E lá do rancho da pra escutar
o fluir escorrido d´água de sonho,
vai entrando no ouvido,
enchendo o corpo de torpor,
amolecendo o pensamento e...
Glubblubglibblubglugssssssssssss...

Insônia

O rego d'água quando corre riachoso
pensa em grotões anchos, prenhes de carás.
Lá na légua ele vai se amontoando
em aguarias de muita chuva.
Vai ajuntando lama de folhas
e emburacando um corgo.
Seu ofício é preencher, ajuntar,
apodrecer paus e semear tuviras.
Um rego d'água permanece.
Sua desimportância é maior que o Paraná.
mas é debaixo de sua saia que nascem
os caudalosos, os peixosos .
Tem olho pequeno e nome engraçado:
Batalha, Ceroula, Corguim, Lambari!
Sempre merejando sua insignificância
vai dando nomes e barranco pros graúdos.
Só crianças e passarinhos gostam dele.
Da pra enterrar o pé na areia,
encher o papo e chutar água.
Sapo também fez seu girau
pra reclamar gia na boca da noite.
Evém vindo ela botar rede.
E lá do rancho da pra escutar
o fluir escorrido d´água de sonho,
vai entrando no ouvido,
enchendo o corpo de torpor,
amolecendo o pensamento e...
Glubblubglibblubglugssssssssssss...

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A modernidade.

Sintonizei um ipê roxo no brejo
pra ouvir os reclames do sabiá
que em tom de protesto sombreava chuva.
A pomba do mato, em baixa frequência,
uava seu ovo num ingazeiro pançudo.
O sol quarava um rego d'água esgueiroso
que cheirava a domingo de sol com chuva.
Espreguicei uma certeza abundante:
Na brenha, o governo é do jãodebarro.
Ele tem seu porfazer, seu passo-pulo,
seu destemor de coisaruim.
Desdenha toda modernidade fora do mato.
(No mato o contemporâneo é árvore)
Em baixo de um pau torto tem um coró,
rolinha que botou agouro nele teceu um silêncio,
mas um burro bardoso bufou espanto em todos,
é redomão em cela e arreios.
Uma nuvem de sons e cheiros conecta
minha alma numa raiz de paineira.
Ela está prenha de tantas flores
que o vento vem cheirá-la por trás.
Um caramujo olhoso espreita o dia,
suas anteninhas não pegam novela
nem a zuada da bicharia diurna,
mas ele assunta.
O quero-quero fica mentindo toca,
mas todo mundo destampa seu segredo,
já sabe que o ovo criou pernas finas.
Até coruja respeita o vizinho gralhento.
Galinha já armou rede na goiabinha brava.

domingo, 19 de maio de 2013

República


I
Passarim idêio um pouso
mas a empreitada ingigia cálculo.
(Em lingua de bicho, palavra não tem zói)
O mandorová camuflado sanfonou sob a folha
e o pinhé eriçou a plumagem feito onça,
sem perícia, confundiu antena com estame,
e a lagarta foi tecer no oco dum toco.
Foi assim a derrota do Golias.
Enquanto ela operária, partidária
cozia sua cama mimetista,
bem bordada em dois olhos carmesim,
um em cada asa de seu novo reino.

II

O louva-deus pardo, com seus óculos de boticário
Mais parece um contabilista sobre os livros.
em seu terno marrom discreto, escova as patas.
Calculando o bote, tocaia uma borboleta flamejante,
é a Vanessa braziliensis,frágil criaturinha tropical.
Pernas cruzadas, com cara de bom moço,
em pose tão beata, ataca, fere e come.
Sua sisudez proletária, sua postura sindical
não revelam a frieza do caçador solitário.
Mas ele não tem pressa, tem por Senhorio
Um velho barbudo, deus de toda peçonha.

III

A formiga cabeçuda fez um ninho de terra branca,
em volta, coroou com gravetos e folhinhas secas.
Diligentes como deputados, fiscalizam o séquito
que vem trazendo folhas maiores que seu corpo.
Pelo caminho trocam frases em formiguês e seguem.
Numa ampla câmara com ar condicionado estacionam.
A presidenta aquiesce, orgulhosa de seus soldadinhos vermelhos
Cônscia da breve turbulência lá fora, ela segue sua campanha.
Nada teme, sua vida será boa e longa,
ela também tem seu deus bonachão a lhe guiar...

domingo, 28 de abril de 2013

Receita de filhós.

Pegue uma Tia Chiquinha, ou Carmelina ou Maria,
sintonize em Índia, sua cantiga de cozinha.
Numa bacia de alumínio batido, rebatido,
amassado, ariado e bem polido,
coloque uma porção de polvilho, de ouvido.
(Deixe os olhos dos meninos pendurados na porta).
Em seguida, acrescente quatro ovos de carijó,
(se tiver azul é sinal de boa ventura)
mexa bem até ficar com cheiro de chuva.
Numa panelinha da dona Bela,
(aquela com cabo feito pelo vô Vicente)
acrescente água, açúcar, sal e um pouco de óleo,
embale como quem dorme criança em rede,
deixe ferver e escute dona Bela inventar
a historia do menino Roque, que não se podia chamar.
Acrescente na massa, e mexa até parecer alfenim.
Enquanto enrola os bolinhos, escute a doçura da Tia Chiquinha,
com sua voz afinada em terceiras, sua harmonia.
Frite os bolinhos em óleo quente e peça um café à Belinha,
quando ele fumega, chama alegrias, chamas filhos e netos
Cujos primogênitos são Antonio e Chiquinha.
Coma de olhos fechados, e gema um pouquinho,
Sinta toda a saudade, que debalde escorre na pia.

Crise existencial.

Com o corpo atolado na rede
e os olhos pendurados nas estrelas,
um cheiro de mato me anela.
Numa poça de cantorias e cortejos,
um sapo goteja seu canto incerto.
Ora diz, ora pergunta: quem vai? Évem?
É noite? É dia? É rã ou é gia?
Sob o estalido de galhos se rompendo
e o tom da grama crescendo...
Pergunto ao éter, (ao que se oculta na voz da saparia):
De onde vim? Para onde vou?
O sapo entoa seu gemido Bachiano:
- De Pedro Gomes! Pedro Gomes!
A gia sussura sua vozinha melíflua:
-Pra Coxim! Pra coxim!
(O que, aliás, é o equivalente a capitania).
Agora sei a rota e o rotundo
Sei o raso e o profundo:
Sou um sujeito de quimeras
pessoa de capoeiras e cacimbas.
Gerado nas entranhas do nonada,
do que não é, de gentes vãs,
de coisas sem valia, sou cria
dessa cablocracia, dessa parva, desta saparia.
Sou filho do marracabelo
e meu destino é a morraria.

sábado, 27 de abril de 2013

Sabedoria da Itaúba.

Me atrai o tosco, o fosco,
Sou dado a maiados, aos tordilhos.
Me visto do roto, do lampinado.
Tenho ânsias de brenhas, de picadas na saroba.
Acredito na verdade da itaúba velha,
quando senhora de cãs, avilta seu dorso de sóis e chuvas,
na tapera cheia de historias pra orelhas de paus.
Desconfio da pedra lixada, da cara polida,
esculpida em Carrara, lisa, domada.
A pedra não se doma, já dizia o João.
Mas quanto se pode aprender do desbotado,
da nódoa, da mancha que o caju da de lembrança.
Com o melado da fala acaboclada adoço minha prosa
e vou afiando, afiando a pena que cá dentro rima.
Coleciono ditos, causos e nós de peroba.
Tudo isso tem serventia na hora que dentro range.
É panaceia d’alma, é donde se apoia o coxo.
Quanta serventia tem a fresta, quando a réstia
vem trazendo a manhã que nunca desiste
e minúsculos grãos de poeira dançam sua sempre dança.
Quando o barulhinho dá água vem em seu andar riachoso
faz lembrar do café, do mate, do amargo de toda erva cheirosa,
pergunto a uma perereca amarela de tanto pensar:
-A vida das coisas, quem pode explicar? Quem entende?
A gia, o Urutau, a guanchuma, o saruê, o zaino que corre...
Eles sabem o rumo certo de toda traia do mundo.
Sabem ver no lusco-fusco, que a grama goteja solerte,
enquanto calangos põem um olho pra espiar o mundo
indagando se já deu hora de embaralhar as folhas.
Ela pisca comprido, já dando prazo pra pular,
dá uma mijada no páu e vai procurar serviço.
...
Povim besta.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Baleiro.

Evém o baleiro
évem o nêgo seu Dodô
évem trazendo sonhos e alegrias
em seu tabuleiro de cor.
Eu menino de igarapés e trieiros
amava de longe aquele nêgo
com sua calça branca em chinelos,
um de cada cor, reluzente ouro nos dentes
e guarda-chuvas azul, rosa e bordô.
pendurados em sua tábua fornida
de imbuia, cravejada de odor
vinham além disso, mistérios açucarados
aventuras de gibis e aquela antiga dor.
Hoje a conheço bem, fui me fazendo homem
deixando de lado a quimera, pra de vera
inventar um adulto, um ator.
Mas o nêgo Dodô, era tudo:
Era menino nas canturias, era homem
pra contar a grande valia, que trazia
em seu baleiro de cordéis de amor.
Era cambaio o nêgo, era um corisco
em historias de mal-assombros,
enquanto contava "uns conto"
versado em Pai da mata, Pé de garrafa
e Curupira, o nêgo em tudo era dotô.
E quanto mais fundo a alma ia,
embrenhada em matas e grotões
mais depressa derretia
o pirulito queimado que vendia
o nêgo valente, o Dodô.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Que me desculpem as belas.

Pela manhã fumei uma lira
e tive êxtases de cordéis
sorvi do limbo a rima
banhei-me em tons pastéis.
-Há! que desgraçada essa sina
da métrica que tudo alinha
e encaminha meu bem querer.
Que de querer quase nada tem
que de bem só um pouco contém,
mas se quer assim tudo arrumado
bem assentado, polido e encaixotado
Pra não incomodar ninguém.

Quisera poder ser livre
do laço que me prende à forma
do regra, do fuso, da norma.
Quisera ser como um tronco
apodrecido em musgos
em limbos, em lesmas em fungos.
Que me desculpe o poeta
que da boniteza era esteta
que cantava sempre beldades
e dava com as feias na testa
Não quero ofender ninguém
Mas de beleza ele não tinha vintém

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Rima.

Sou inimigo de rimas
Como sou de cismas,
Mesmo assim peguei meu cinzel,
Meu martelo e minha crina
Para escrever um poema
Que seja visto de cima.

Desci ao vale da morte
Ao norte, onde pedra é rima,
Onde a palavra estanque
Me arranque desta Turmalina.
Onde a métrica é passaporte
E é torpe tudo que se ensina.

Medra no perau profundo
A má sorte, que destarte,
É a minha talinga fina.
O casuísmo é o consorte
A régua é a minha asa,
Minha casa, minha sina.

Perdi-me em seus estames
Sedimentei-me em água de mina
Perdoem-me os poetas
Pois não sou um esteta
Aquiescer é o que me resta
Não presta a minha rima.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Memória de mim.

Esse lugar, essa estranheza
que nem existe de fato
tem minha historia, meu fato
pra eu não me esquecer de mim,
faço disto meu ato.

Faço desta coisa tosca
desse lugar sem vida
minha memória esquecida
minha cama de espantos
minha voz esmaecida.

Quando abro esta porteira
e entro nesse meu quarto
é como se fosse um parto
daquilo que de tanto beber
já estou bem cheio e farto.

Brenha.

Lidar com palavras é mentir-se,
é investigar espinhais, é coser-se
e descoser-se de juazeiros.É entornar o querer,
é derramar-se as entranhas na pedra quente.
é matéria de ferver-se em panela de barro
Em que o barro já moldado, já queimado
queima e molda de novo o novo.
Vestir-se de palavras é besuntar-se de estradas,
é a lida do vaqueiro de couros nas brenhas,
é oficio de seringueiro, de pantaneiro.
Mover-se na escuridão de verbos fugidios
e domar idéias que são réstias de luz
sobre uma folha seca adormecida,
é ver beleza no sórdido, é gozar com telúricas.
Quando eu era menino, comi uma casinha de barro
feita por um besouro flamejante e sonoro.
Tinha gosto de antigamentes, de historias.
Guardo no ventre de minhas memórias
este sabor terreal, esse tom de infinitudes.
Nesse tempo eu era domado por palavras,
Eu não as tinha na língua, mas as sorvia
sequioso como se fora sorvete de groselha.
Aquele menino que vai olhando pra trás
sou eu mesmo quando era sábio,
era profundo como o poço de Jacó.
agora sou raso, hiante.
Aquele menino que não me reconhece nele,
admirado com minha sua estultícia vai sumindo.
Entre nós há um abismo de idéias e nomes.





Ele leva consigo o segredo das minhas palavras
O mistério de toda poesia e sensações d’alma.
Fico só, em meio a xique-xiques e um Juá interrogativo,
estou entrelaçado por caraguatás verbais...



domingo, 2 de dezembro de 2012

Famélico.

Estou vazio como um sonho esquecido
minha mãe é a escuridão
meu pai o éter.
Não sei qual é minha mão direita
não conheço minha mão esquerda.
De onde venho não tenho memórias
pra onde vou não sei o caminho.
Idiotas com diplomas apontam direções,
dão-me receitas curativas.
Eles, mesmos, os idiotas!
Tateiam na escuridão .
Não sei se estou nu ou vestido
estou apenas, e não sou guiado por nada.
Sim, sigo meu ventre,
estou preso aos meus intestinos.
Minha sobrevivência é a mais importante
de todas as coisas que tenho.
Não tenho nada, seguro-me firmemente
no desejo desesperado de viver
e à incerteza da morte tão certa.
-Porque você me olha e balança a cabeça?
-Estúpido! Acaso sabe pra onde vai?
-Não! Você apenas acredita que sabe!
Me deixe ser esta estranheza
e se embriague na sua própria.
Vamos continuar... trabalho, família,
comida, ódio, amor, disputas,
perdas, ganhos, choro, riso...
É o que somos.
Não somos nada.
-Desculpe!
Se você acha que é, apenas continue.
Não olhe pra traz. Não me veja.
Não me estenda a mão,
a escuridão nos envolve calmamente.
Compre seu carro, construa sua casa
faça alguma coisa grandiosa
pra não ser esquecido depois de apodrecer.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

PIÁU

Sua alcunha nem é nome de homem.
Vem de seus habitos, bardoso que é
remansoso, vem varzeando a vida.
Carranca, lingua preguiçosa, barba de barrancas.
É dado a interjeições aquosas.
Conta historias de bichos e peixes,
Todos conhecidos, todos catalogados.
Queixada, lambari, poita que se perdeu
Mulher escanchada em porteira: meio riso.
Do canto do olho vermelho vem um deleite,
memórias de aventuras de barra de saia.
Mas logo encharca de novo as palavras
com a água barrenta, espera silenciosa e...
Pacú, piapara, jurupencem eh eh eh..
Estica os beiços e sorve a barranca inteira.
Ele pesca até nos guardados do pensamento.
Piáu! Ele nem atende mais pelo próprio nome,
mas reconhece logo o chamado ribeirinho.
Piáu! É título, é apelido, é sua historia.
-Eu sô sozinho! Se assegura de sua força.
Mas no estofo, é solidão e um embornal de medos.
Filhos tem, mas se foram.
Amigo de bichos e bicho homem.
É homem, é peixe, é várzea,
É um Piáu ensejando gente.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Aroeira

Conheci um fazedor de poesia.
Ele ia fazendo na prosa,
ia beradiano um assunto
vortiano, cismando e pimba!
Soltava aquela risada por trás dos dentes
enquanto no miúdo dos olhos me assuntava.
Lá no oco, envinha um certo desdém,
Medindo-me a mim, pachorra,
que nem cachorro que acuou carro.
(trotinho de dever cumprido)
Dizia, com a idéia lá no mundão sem fundo:
-Pessoar estudado! (pausa pra cuspir o fumo)
Mas da vida é chá de toco!
“não desvenda o por dentro,
o que tocaia nos rim, lá no figo”.
Eu cá, estúrdio, vejo romance.
Em riba do meu caixotinho
Boto medida, analiso, classifico.
Lida de boiada, manhas de burro bardoso...
Tudo contado bem miudinho.
Serventia de raiz de Sansão,
resguardo, malassombro.
Tudo investigado na ciência.
Eu assuntando auspicioso,
entre um gole de chimarrão
e uma análise morfológica...
Estanque no peito, um deleite.
Vou sorvendo os verdes, o amargo,
O esperançoso, o aflitivo, a seca,
A enchente, a derrama da farinha,
cavalo redomão que deu coice...
Tudo bem escrito e metrificado
no rosto recalcitrado, na pele rugosa
no poema homem, escanchado
numa aroeira domada em cavalete.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Temíxtocles

Bigodinho fino por riba dos beiços,
cabelo besuntado, partido no meio,
aquela calça de tergal e chinelas,
um estalar de língua sestroso.
-Seu bigode! Tem pão?
Chap, chap, chap, é a chinela quem responde
entre dentes e um coçar nos quartos:
-Tem fi dum a égua!
Não gosta da alcunha.
O armário de pães é todo de vidro,
sobe logo aquele cheiro antigo,
cheiro de menino, cheiro de bolicho.
Raimundo Salustiano nome de pia,
mas por adoção literária “Temíxtocles”.
Homem feito em cordéis e novelas,
com idéias da capital, no meio dos bugres.
Maria-mole, suspiro, canudinho,
fumo de rolo, corda, piaçava, seu patrimônio.
Jornal é pra embrulho e desinformação.
Amores se os tinha, embaixo da tarimba
ninguém assomava, mas era notícia.
Fazer medo era seu ofício de poeta,
meninos amansava era com sete belo.
Seu segredo: o cheiro de bacurau choco,
cultivado em banhos dominicais,
com muito sebo no cabelo e leite de rosas.
Elogio era acertar a pronúncia:
-Temíxtocles!
Ele amolengava, e chiava um risinho baiano.
(tinha artéria filosofal dentro da cabaça)
Ma isso era no escondido, nos guardados.
Lá por fora era aquele tufo de cabelo fora da camisa,
um mascadinho de fumo e a inhaca.
No mais, piçarra de solidão e desafeto.
Acho que por medo de rebuliço de saia.
Atiçava umas piscadelas, mas desdizia:
-Cisco no olho ara moleque! É o cipó!
E era o magote correndo e gritando:
-Seu bigode, Seu bigode catinga de bode!




segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Cavalinho

Carroça, vermelho desbotando
parou na porta da venda parda.
sobre seu estrado, papelão.
Cavalinho pensa em seus arreios.
Mascarado, uma pata erguida
rumina uma cisma de tresantontem.
Seu rabo automático espanta
idéias e lampejos sonolentos.
Sob suas ventas a placa:
“Carvão dez real”
Não tem mais graça.
Lá dentro um estalo de pinga.
-arré fiadaputa!
Meia talagada demais de cedo.
Cavalinho meneia o cabeção moço, mas desistido.
O outro evém la de dentro zureta.
Braguilha quase aberta,
Chinela desbeiçada, mas no eito.
No peito estampa de política:
“Justiça, igualdade e responsabilidade”.
Pangaré não se engana com açúcar,
mas também não vota. –Diantanada!
Prefere andar na vazante.
Puxa o mundo nos lombos.
Mas não atina, é cavalo.

O encontro

Encontrei a poesia,
o lirismo, a verdade,
o absoluto.
Encontrei Deus.
Sob denso matagal
um rego d’água cochicha,
vestido de areia branca.
No barranco,
bosta de minhoca arribava.
Em maravilhoso surround
um passarinho amarelo profetizava.
-Furuli! Furuli!
Coisa de muita lonjura, mas certeiro.
Uma pedra negra vestida de limbo
mudou-se para aquele canto, e ele mesmo
o limbo era densa floresta.
Carazinhos se escondiam no lodo.
Bambuzeiro, uma perereca de butuca,
embaúba e um rola-bosta carrancudo.
Maravilhosa desordem,
perfeito emaranhado de cipós,
talos e troncos cobertos de viadutos para formigas pretas.
Um besouro obtuso varria o quintal.
Toscanejando num pau podre, sua janela,
um coró cabeçudo reluzia.
Havia uma certeza:
Não somos necessários.
A consciência embrutece.
Retornarmos ao pó talvez seja nossa única grandeza.
Preciso ver os emails.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Experiência

Amanheceu completamente
e o mesmo sol veio descansar
em minha janela desbotada
de seu ofício de quarar
lençóis e fronhas que de ontem
destilam sonhos amarelados.
Lanço mão aos esquecidos
em minha gaveta emperrada
uma fita cassete e uma caneta rota
ainda se tocam fraternalmente.
Dentro, alguma canção engasgada
guarda verbos antigos
desbotados pelo desuso.
Eu, como a jaqueira sonolenta,
Envileço.
Ela é como um ferro a brasas
bonito, serve pra decorar.
Jaqueira estúpida.
Beijos e rubores juvenis
sobem com uma brisa
de odores fugidios.
Onde foi parar aquele viço,
aquele gosto de aventura.
Acho que já aprendi tudo.
A novidade é enfadonha.
Séculos e séculos de experiência
me cansam mortalmente,
poitei na curva,
espero o último rebojo.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Canção outonal

Em agosto as folhas
amarelam tardes
e a esperança sobe os troncos,
enche de algazarra os caminhos,
alvoroçando as saias de antigas trilhas.
Por entre cãs de palha amarelada
o vento grita gravetos
e o capim derriça seu estio.
Toda a algazarra do mundo
agarra-se em significados frívolos.
Um trator vermelho encolhe seu dorso
enquanto pica-paus tardios lhe afagam a ferrugem.
flores antigas dançam
e seus estames perfilados por varizes
atinam para adubo,
seguidos por talos, folhinhas e areia
cirandam sua canção outonal.
Uma larva de cara branca
vem espiar o oco do dia.
Sou eu! Todo erval,
nascido entre orelhas de pau,
marias-pretas e melõezinhos de barriga inchada.
Um olho-de-boi aquiesce minha discrepância.
Vem a noite.