terça-feira, 28 de julho de 2015

Usina

Tenho pena do canavial quando deita,
sua feiura esplêndida atordoa o verde.
Em suas ruelas arrumadas a morte
montou seu acampamento e espera.
Gentes sórdidas comandam seu doce,
organizam seu bagaço em montes
e esperam o jorro volátil que fascina.

Tenho medo do canavial quando brota.
Sua folha cheia de tanta ganância
faz do eito um campo mesquinho,
nem a saúva pode com seu pleito.
Aviltaram a doçura da caiana,
sujaram os rios com seu sangue.

Tenho pena da cana quando mói.
Em seu remoer e queimar infinito,
queima consigo a gentinha rasteira
o povinho que vive em baixo,
povinho alado, povinho pardo.

Tenho pena da cana quando queima.
Em seu fragor, o progresso se avoluma
em montões de cinza e pó inúteis,
que na distância de um olho espreita
a anta quando sai pra beber,
o bandeira, o tatu, o mateiro.

Tenho pena da cana quando amontoa
índios, brancos e negros em galpões,
a espera de sua porção de açúcar e sal.

Tenho pena da cana quando avulta.
E seus senhores encastelados,
sonham com outro pau a queimar,
outra sombra, outra semente, outro regato,
insignificantes, inúteis e que não rendem.

Tenho pena da cana quando lucra
e seu dom de adoçar corroí como ácido,
o chão, o mato, a lua quando vem espiar.

Tenho pena da cana e sua nobreza
agora instrumento de açoites e pejo.

Tenho pena do João dos canaviais,
do Cabral, do Rosa, do Rego
que já não vemos mais.


sábado, 25 de julho de 2015

Joalheiro

Há por certo muitos Raimundos,
mas um, notório por não existir de fato
posto que inventado, sua voz é fado.
E deste que falo é sem rima
por sobrenome Batista, prima
barbear menos, que por contar causo.
Em Pedro Gomes, reza que assistia
seu ofício de navalha, tesouro e pia
embora montasse melhor em inventos,
com cela e arreios, nos lombos da fantasia.
Havia quem lhe cresse a porfia, como eu,
menino de antanhos , camafeu que ouvia.
Era por sombra de antigamentes que se dava
causo de onça assombrosa que morreu
ou lobisomem, - E inté arma penada!
Dai quem temia era o menino eu
que no embaixo, assuntoso idéiava.
Em seu confessório tosquiava gentes
que ovelhavam aquele mundaréco,
sempre planejando escapadas capitais,
posto que eram sonhos e venturas
que merejavam as ruelas abissais.
Eu lá, meninava um ouvido desconfiado,
aprendendo a embolorar palavras
que ainda hoje, daquele tempo alijado
recolho pedras de antigas lavras.

domingo, 19 de julho de 2015

Outro agosto

Agosto abriu sua boca fria e me engoliu;
Sourveu-me fastioso, lerdo e sem volúpia.
Pude ver por dentro seus dentes inquietos
moendo os restolhos já ressequidos da mindinha.
Um rosilho, roncoio de dois anos troteia esparçoso,
arremete bufando contra o baio e arrefece.
Nas copas, um silvo ventoso anuncia já a prenhês do mundo,
é tempo de as árvores empoemarem folhas.
Seus estames se soltam sem ruído e flanam até o chão.
Nas cidades, calçadas sórdidas ficam coloridas
e traduzem uma infinidade de matizes farfalhantes.
Coleciono agostos desde menino lá em Pedro Gomes.
Tenho uma caixa cheia de ventos e palavras inúteis:
Cisma, toleima e im'antes são destas que ajuntei.
Tenho ventos amarecelidos. Uso para desassombro.
Achei no monturo lá perdido esta: Rufião.
O Vardi que me amostrou e ensinou o sentido:
-Desbaguado que sobe na vaca mode marcar o cio!
Dai é só apartar e largar o brasino no pasto!
-Cê tem as letra guri, mas eu tenho garrão! Anuviou.
Tem também lida: desdita e tresantotem. Só por mode percisão.
-O Cuiudo não enjeita briga nem montaria! Ensina.
Eu, ventoso, olho pra dentro de um mourão corrompido,
que abrigou um vespão de riscas brancas nas patas.
A fala do Vardi vai afundando no buxo de agosto,
enquanto tento contar as cores que o bambu faz quando estala.
Sei a voz de todo pau quando geme empurrado pelo vento.
Aprendi que o rufião pega teima. -Causo da mardade!
-Presta não que morde a tropa e fica pulador!
Ensinou que o tordilho "a gente não divurga",
na boca da noite. -Tem que escuitar bem!
Tudo ponho no debaixo, por serventia que têm
todas estas coisas, são de grande utilidade e valor.





sexta-feira, 17 de julho de 2015

O barbeiro

Bem embaixo de um mundo esquecido em gaveta
fica esse lugaroso extinto em preto e branco,
onde algumas cores pintam lembranças meninas
aboletadas em uma cadeira de barbeiro,
cujo espaldar verdejento inclina-se para o nunca
e seu braço de madeira encerra certa sobriedade,
posto que assistia-lhe Raimundo (Por patente Batista).
Seus óculos agregavam-lhe certa notoriedade pública,
tal qual o padre, o alcaide, a parteira
e certo doido municipal ainda em serviço.
Contígua à navalha hesitante, cozia tia Ana
(Sua empresa diária era perfumar).
Um feijão de cheiro que pespegava dentro,
caldava seu gosto marrom até o pé da serra
encostada numa nuvem que morava lá desde antes.
(Pedro Gomes governava toda poesia que havia
albergada em alfogers do mascate Zé Bezerra).
Vinha do fundo uma cantilena gemida em stacatos
que anunciavam o caldo grosso e arroz soltinho.
O barbeiro provia cabelo e historia de onça, assombração,
valentia e certo lobisomem lá no olho d'água.
-Cunhece não? Bicho malino que é o cão!
-Só disvira pra homem em curral de merda!
Tic, tic, chap, chap a tesoura sóbria tinia.
A correia de couro mode afiar desconfiava a prosa,
o freguês confiado, com a cara cheia de chantili
nalguma vez gemia um: -hum! Oxente! Arre égua.
Nesse batido ia e desvinha ele porfiando.
Foi Raimundando longe-longe o Batista.
Fez filhos e netos, mas nem um deu barbeiro.
Seu espólio ficou-me por herança poética.
A serra derreteu a nuvem que era de algodão
e deixou no chão a marca de um tempo roto,
calcado pelos pés impiedosos do progresso.


O ninho

Uma velho caminhão obtuso passa branco.
Sua ignorância das crias é pressentida
e as cabeças não se movem por ele,
no entanto, a bicicleta com um menino vermelho
gira as parabólicas cheias de olhos sob a grama,
mas o arreceio desvanece, e o casal segue sua prosa.
Em corujês, tudo se diz com olhares ruidosos
em amarelo, perspintado por manchinhas pretas
e a bola 
que sabe tudo olhosa no meio , assente.
Estão emburacadas ali em sua casa chão faz pouco,
causo que já conheciam o lugar de im'antes da praça,
do homem-pedra, do chão preto e daquele vum que vum que vai e é'vem.
Plantaram naquele buraco antigo quatro sementes
das quais vingaram três, mode que uma adubou.
Sabedoria de coruja não tem lágrima
porque o que é'vem, é'vai do mesmo modo o dom,
tanto quanto o vento que ensina as estações.
Cá, vejo elas fingindo ninho num mourão triste,
que é assim o modo delas desorientar:
"Ausência é silêncio bem explicado,
serve de cuidado dobrado".
Provérbio corujal que todas sabem.
-Inté lá na escola delas é regra viu seu moço!
Hum hum! (Que esse sou eu assuntando).
Veio-me à memória os óculos, a régua,
a gravata e o chapéu do professor coruja.
-Escolei uma lição de buraco e cuidado hoje! Perspensei.
-Coisas que im antes sinhor nem devia de saber!
-Nunca se sabe quando tem percisão de ninho né?
-Hum hum! (Corujei mode encerrar, a prosa ia lerda).

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Malassombro


O poeta preside o monturo
e seu ofício é inútil aos construtores,
mas ele sabe coisas que não interessa
e delas nenhuma é pão:
Lobisomem se esquece quando desvira
e o rio guaçú tem carência de sufixo,
posto que sua anchura é fingida.
A seriema guarda seu ninho com ausência
e o papagaio gringo tem a fala verde.
Criança que brinca em guavirais
tem tenências a juntar palavras,
mas em tempo de chuva rala com sol,
os trieiros exalam cheiros que entorpecem.
O quero-quero engana o ninho no valado
mas o lobinho encherga  embaixo da terra.
Todo esse saber não serve para asfalto
e é inútil para fundações.
Isto é certo como o vespão quando enterra.

sábado, 15 de novembro de 2014

Jatobá

Jatobá não tem pressa.
Tece sua pedra-fruta como quem já sabe,
em sua pele cascarosa aquiesce uma lição:
O adensar-se demorado, mojando a carne.
Amigo de antas e cotias vespertinas,
ele sabe seu tempo e não desespera o doce.
Herdei de minha avó, que com o olho no natural
aprendemos o homem em seu fazimento.
Sua sabedoria era menos do etéreo
que das coisas chãs, de raízes e telúricas.
Dela aprendi a desfaçatez do macaúba solteiro,
que desdenha pasto e sobe pra ver o bem longe,
deitando no chão um lastro de coquinhos amarelos.
Casca de pau também é fértil pra poesia;
Sempre tem uma orelha de pau lírica no eito.
De todas os grotões do mundo
só o cerrado me entorpece cedo.
Acho que me inaugurei em pé de serra,
no Marracabelo,onde desvendei o inútil.
Minha sina tem sido aprender a várzea,
o lajedo, a pedra esverdeando no leito,
rastro de anta quando alúa mode pegar cria,
dessas coisas que não tem serventia útil.
Me pespegam sempre ideias de limbo,
de trieiros e guaviras amanhecidas,
dessas coisas que em outubro ensejam
um mundo que se refaz do homem.
Im`antes do homem se inventar
o monturo tinha sua própria lei
e o mais era o ir e vir do vento
levando o cio, trazendo semente.
O que regulava era o caos do verde.
Agora bicho tem tenência e arreceio
que o mato já tem dono e cerca...

domingo, 21 de setembro de 2014

Uma historia de caçador

Mané Tiriça por serventia de caçador
era destemor pelas bandas do vinte e um.
Nossinhora por guia de arreceio assombroso
trazia no peito pendurada em amuleto sortoso.
Sem carecência de convívio com gentes,
alongava vê se achava cateto ou capivara.
Em não tendo, se valia de seriema ou tatu
mormente onça e bandeira tal e qual.
Conviviam na mesma cara maleitosa,
certo amor por penosos de menor monta
e a sanha pelo arfar tomboso da anta quando espicha.
Era assim mofino com o chupim barroso, o japu-preto
e o coleirinha, que mirava por despropósito de susto.
Mas em um dia de vento que entorta o corrido,
pairou sobre o quengo um juízo, um fragor de alma.
Q'esse negrume vinha lhe consumindo o quieto:
-Desde o im'antes, de tempos que num alembro!
Por desamor de tudo, ia-se já quase devorado,
tanto pasmo, que lhe passava já o esfolamento,
o sangue, a brancura dos olhos embaçando...
A terçã tingiu sua pela amarelosa e o dentro,
tanto e quanto que agora esmorecia os feitos.
Menos por gosto que honra, limpava o cano
e amargava a boca desde o ventre, antecipado.
-Devia de ser a cria deixada à lua cheia q'elaveis!
(Um balote certeiro num mateiro filhotado)
O sucedido enojava-lhe as mãos trêmulas.
Não podendo mais sustentar notoriedade,
caçadas sempre com escusas falseadas
Pois-se em reza mode sossego, mas qual...
Era o balido mais que o estampido, um soco
no estômago já enojado de todo apreceio.
Finou-se assim o Mané Tiriça por sobrenome caça,
caçado pela tísica dor d'alma que consome mole
a carne, o querer e a certeza que corre dentro...

...


(Colhido em um assuntamento de prosa que passava)




segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O anúncio

O sol põe-se a espiar o mundaréu
por detrás do morro que sustenta o céu.
É nascente e évem sestroso catucar o sono,
mode derrubar as últimas gotinhas da guanchuma renitente,
vaca tosa tudo que verdeia e manda pro bucho.
Sopra com as ventas e depois arremata os cotocos,
deixando no ar um cheiro esverdeante.
O inverno já vai arretirando seus arreios
mode a primavera pintar o chão de amarelo.
O chapéu-de-frade inda não marelou flores
(mas é já já que vem o disgunverno do tempo)
Na casa feita em baixo de um angico torpe,
sapo anuncia as últimas chuvas se arrumando.
Desconfio; A gia diz que é certeiro o agouro.
Sou um homem da ordem das miudezas,
valorizo o namoro de grilos e gafanhotos. Confio!
O jãodebarro persegue o cri cri rasteiro.
Suas empresas são: Assuntar olho de pau
e bisbilhotar a gente rala que mora na grama.
O dia começa a derramar sombras no grotão
e a cantoria agora virou matinada
no entorno da hora da borrasca,
um diz que cedo, o outro: -É noite!
Há quem pergunte, há quem afirme,
mas no angico o radio diz que é tarde.
O povim rasteiro sempre sabe d’água.
Atras do morro manchas alaranjadas
Vão dando ao lusco-fusco tons de ocaso.
Um hálito resfriento subido do grotão,
da aviso de frescura que despega
e o gado já se reúne mode a prosa.
Pagaios agora pintam o céu de negro,
vão preparar o verde do dia seguinte.
No angico o locutor já parece bêbado,
sua voz molhada já troveja no horizonte
e as primeiras gotas dão aviso urgente:
Chuva, chuva.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Uma casa de esquina

Casa velha de olhos baços
virando as esquinas do tempo
já desbotando caras e trejeitos
esquecidas em seus recônditos.
Em sua saia, chuvas pintaram reticentes
manchas escuras sobre a tinta titubeante.
Nomes, caras e odores deixados de ontem
contam histórias de glórias e perfídias:
Uns moços com fogo nos olhos;
uns velhos com tristezas juvenis
que nela passaram sóis e invernos,
lhe pejando e pespegando vicissitudes.
Seus portais já encanecidos
sustentaram sonhos e desditas,
deixando-lhe escandecências.
Sua pele já não tem mais o mesmo tom,
nem o viço, nem os vícios de anteontem.
Casa velha de mata-juntas desjuntas
se esgueirando entre moças de alvenaria,
belas fachadas e grades portentosas.
Velha casa, de casais e descasados
de um tempo que o tempo esqueceu.
Velha moldura que incomoda o transeunte
por sua bela feiura de casa carcomida.
E vai ringindo sua cumeeira torta,
com esperanças findas de que por esquecimento
pensem que a velha casa da esquina,
já está há muito morta.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Vício

Há tanto já escrito
que é preciso nada dizer,
como diz o Dito:
quem Quintana sempre Leminski...
Por esse motivo torpe de poetar
muita nobreza já se derrubou,
por mode papel engendrar.
Mas a abstinência de verbo
me faz sempre pecar
contra o papel que insiste
em me corromper e vexar.
Um velho tronco apodrecido
num igarapé mode carás,
quer valer mais que um Drummond,
que um Cabral ou qualquer Mané sei lá...
Um rio que escorre seu dorso
sabe mais que um qualquer
com manias de poetar.
Assim sendo, o oficio de rimar
é o mais vil e mesquinho
que nos leva sempre ao cadinho
deste vício a nos perder
de viver e descrever...

quarta-feira, 21 de maio de 2014

A viagem

Na estrada tingida de cerca que desce pra Aquidauna,
tenho contentamento no capim que vai secando,
quando o mês de agosto pinta a saia da serra,
corando de pejo a brancura do mandiocão nu.
Vaca assunta o vento e destampa vale abaixo,
nelore não tem serventia pra amizade boa,
estima muita que tem no couro dele branco.
Em revés um vento prenhe de cheiro de água
trás novas de piraputanga e curimbatá beiçudo.
Um halito resfriorento anuncia chuva raleante
mas empaca, e o sol ressoa sua cantiga sempre.
É domingo e o mundo está com cara de festejo.
Verdade que ele nunca desmuda a monta
mas cá dentro o coração transfigura o corrido.
Ordinário só o anú-branco que voa bêbado,
bicho desprevenido de destreza até em cantoria.
-Anú só anda de turma! Cada grito uma cagada...
Ensinou o Dito, catucando a venta bolachuda.
Em indo, se entrevê no caminho muito grotão
e desenhos de casas e gente que amontoa.
O Dito anuncia a falência do carburador
e já são por umas cinco da tardinha anoitecida.
O piado espaçoso vai assumindo um som de agouro.
Onça lá na lonjura esticou as patas e roncou
chamando a noite pra inventar assombramento.
-Ô Dito acunha que o boião já subiu a quentura!
Partimos e a cidade vai crescendo sempre perto
até engolir devagar a sombra do automóvel,
feito a sucuri quando anela o papo-amarelo...

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Natural

Em passando por um grotão antigo
dei contemplamento na atividade d'água.
Brotava entre as folhas da capituva
um tingindo de luz amarelante
que cheirava a domingo de manhã.
Ali naquele povoejo é sabido im'antes
que quando vem o sol tenente de brilho,
o mato fica festim e acolhe grilos
e se resfestejam calangos esverdejantes.
O natural sempre anela um pé de sonho na gente
e isso vem desde dantes do homem estar.
Tudo que rasteja ou avoa é querente
com serventia pra alegrar a vista.
Bicho grande come o pequeno mas é lei
e não tem rancor nem querela no ancho.
A bazófia do joão de barro matinal
faz a gente querer estar sempre vivo
mode ver as pernotas hesitantes dele.
Que ele vem no chão minhocar o almoço
mas ta sempre de olho nos viventes...
...
Tapera é coisa de muito luxo hoje
porque o mundo transvirou em asfalto,
mas o joão pernoita é em barroquinha
que ele engenhou em barro amarelo torto,
mode o tucano que vem roubar ovo na certeza.
Tucano é desprovido de humanidade
e come os filhotes de quem descuida a cria.
Mas gente é mais pretendida em maldade,
e tucano nem pega beira com o tino nosso.


O nome e os cheiros

Minha avó sabia de antemão inventar cheiros.
Tinha cheiro de livro, cheiro de mãos velhinhas,
cheiro de beijú na janela e café manejado em bule.
Tudo com precisão de encantar meninos.
Me aprendi gostando primeiro do cheiro das coisas,
depois é que veio a ânsia de desmontar palavras.
Tudo enformado na casa de minha avó ao pé da serra,
naquele lugaroso que ainda atende por Pedro Gomes.
Por precisão de encontrar nomes de tantas olências,
apurava o olho em guardados e gavetas matinais
e sempre tinha um flavor de coisas anônimas de rastreio.
Era preciso dar razão e sentido aos achados e inventados.
Minha avó cantinava um motejo de sabiá oloroso
enquanto preparava eflúvios epicuristas no fogão.
Havia constante voz com stacatos e mordentes
que vinha de algures, sem parentesco visível.
Foi dai que faltaram palavras e desinventei a lingua,
mode caber o sentido, antes que a norma reta.
Nesse emaranhado de coisa, cheiro e gentes,
me achei velho com despropósito de vernáculo.
Tento tresantontem ontem e hoje sempre,
mas não acho mão das certitudes sensatas.
Vou construindo esse sistema rotundo
que é baseado em desidéias e tontices aluadas.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

As palavras

Diz o povo temente que quando Deus desceu
a ver a torre nascente que se engenhava no rumo do céu,
teve uma ideia torta qual que nem guri quando intenta.
Deixou o divino afazer e foi espiá por detras duma urtiga.
Desdigo que era uma ruma de corno estreando em chifre.
Diz a letra que partiu a fala da turma em dois mundo.
Os estranja de tudo que é categoria e o brasileiro nosso;
Esse nosso que o povo fala diverso, corrido e estudado.
Eu cá de minha lavra só sei uns ditos e uns garranchos.
Dos estranjas tem uns com parecência nossa que já escutei
mas no demais é um engruvinhado que embola a língua.
Seu Shizume fala um falar que parece briga feia,
mas diz o povo que é o modelo dele mesmo sempre.
Deu no radio umas modas emboladas lá deles,
mas eu cá gosto mais do cantar nosso que entoa.
Isso tudo é o que o povo diz, mas eu arretenho dúvida,
porque careço de leitura. Mas na tabuada eu avanço
que não me deixo enganar por palavrórios bestas.
Tenho cá na cabeça o nome de tudo que diviso.
Cor de cavalo, nome de pau e o decomer variado.
Todo tipo de assombração e as palavras pesadas
que só uso quando dou alguma topada em toco.
No demais quem fala muito da bom dia a cavalo,
bicho que entende tudo que se diz mas só roi remoe...
Porque se cavalo falasse ninguém lhe punha cela.

Digo.

O caso do osso

Era um osso do espinhaço da vaca;
Taludo, o tutano adesando dentro do cano,
como de menino que nunca boliu em moça.
Versava por umas onze da manhã rebrilhante
e o caldeirãozinho de ferro tungia na quentura,
cá acolá brandiam umas bagas de bolha quente.
Venício butucado no bicho mode não gorpá,
carculava já o derriçar da farinha no caldo.
A visita se aprochegou, assuntou o guisado na venta
e malandrou uma prosa que ia no rumo da boia.
O paneleiro porfiou uma desconfiançazinha bamba
que ia do osso na cara do viajante que se achegara.
-Carcula que esse ai vai lamber beiço às custas!
Trespensou o Venício embaixo do chapeluco.
Conversa vai, vem humhum hum, -Ê diacho!
O homem empacou, sentou praça na cozinha
e o caldo afina e refina, e fogo no cú do caldeirão.
Subiram serra, venderam gado, tombaram jipe,
deitaram chifre em Formoso e o osso galopando...
Num desaviso, a visita peneirou uma fala mofina:
-Ô cumpade essa boia ta cheirando no diabo!
-Eita mas tá mesmo compade, esqueci do guisado!
-Tô sem fome! Embustou o visitante mode convite.
-É pros cachorro! Rematou o compadre já aguado.
Sucedeu um" te mais vorta sempre quiédecasa"
eo cachorro na soleira com as jabuticaba
saindo da caveira rumo do bem-bão garantido a finado.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Outro lado

Zé Piloura era um cabra de maus arreios
sempre com um cuidar rasteiro no olhar
e no branco do zói um agouro, um expectar.
Na boca um sorrizoto rastejante e indeciso
mode desdenhar um qualquer desconcerto.
No trato taciturno pouca fala na voz de tronco,
um arremedo de bugiu chamando chuva.
Mas tinha lá no quengo qualquer sombra
que se traduzia em perguntas engolidas feito caroço
quando a prosa pegava o rumo do céu e seus etéreos.
Ensimesmado não aluia com o divino
mas tinha seus arreceios da monta das virtudes.
No acontecido do tamanduá que cercou compadre
escarneceu da prosa e cusparou um desdém.
-Água que recorre transcorre cumpadi! O Vardi recitou.
-Caçoa não que évem e revém! Deus faz prova!
No recorrer do tempo deu semelhança o caso
e o bandeira trasmudou o normal do medo de homem
numa curva onde a lua estava inchada de vermelho.
Evai évem o Zé, e o bicho não arredava do intento.
Bala comeu no centro, pipocou a porva no ar indeciso.
Mas a coisa descoisou em lusco fusco e sucedeu o nada.
Zé Piloura agourou o compadre que ensinou-lhe o assomo.
Porque do mundo das coisas que trasmudam o corrido comum
é que o temor se veste e reveste de certezas e silêncios.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Mula velha...

A vida vai ficando mais conforme na muda do pêlo.
Quando as cãs vão merejando a carapina
o dorso vai acatando as ordenanças dos calejos
e a vida vai escorrendo pelo vagar do atinamento.
Um certo desleixo com ofensas e obstinações
se traduzem sob o esgar de um esquecimento voluntário.
Barda e muita desquerência pelos novos inventantados.
Acontecências que desregulam o corrido já sulcado,
são um incomodamento a mais sem precisão de ser.
Em sendo, é olhar por riba do eito e cuspir cumprido
pra espantar as formigas que festejam um grilo fenecido.
Dor onde outras já urdiram permanências,
calombos e assomos de um mortejar inda longe mas certo.
A roda evém girando e é sempre o mesmo rodar de dantes;
Embora o juízo das coisas vão deferençando o óbvio.
Réstias de ideias safadosas vão desbotando num canto
onde antes ululavam pegajosa meninice.
O apreceio trasmuda em cor e descor
em lusco fusco, em querer e desquerer.
É preciso acostumância com o batido
levar somente a traia que enche o bucho,
o demais deixar pra quem tem carregadura mais moça,
que mula velha enjeita cela e serventia.

O valor de cada um

Talqualmente o outono quando évem
traz de solapa um respingo de aconchego
enoitando mais cedo o céu púmbleo
e perspegando o mate na língua d'almas.
A chuva fica encangaçada no oitão do mundo
fazendo a tarde ser denoite no relógio do galo.
O povinho temente a Deus, no enroda do fogão
desce a porva do lombo do gunverno ladrão.
Entre uma cuiada e outro, gavam um vereador bão de mais
que inté dá carona pra quem vai pros lado do corgo.
Mormente o surrupio do nosso "Eis roba mais faz!"
Sentencia o Vardi enquanto lava os terém do mate.
Cá no canto, compadre assente com um: "Hum hum".
A latomia do brejo vai deitando na brenha baixa
mas coruja já botou os óculos pra ler a noite,
que no calar das vozes, bicho sabido assunta
mode garantir o seu bocado, tirado dos menosvalia,
como os sapos e as pererecas lambisgoias,
ocupados que estão em ensaiar o coro de chuva.
O mate quentou e requentou a noite começante.
No farnesim da prosa, o Vardi alembrou causos e feitas.
-No tempo do finado fulano e sicrano tinha esteio
Que os homi era tudo rico, nem carecia roubar!
O deputado tal e tal era simpres, falava com todos.
-Numa feita me arrumou inté uns remédio pra muié!
Agora ta virado no setenta. Uma ingrisia só.
Tamanduá vem na cerca furmigar um cheiro.
A prosa pegou o rumo dos queixadas no São Bento,
resvalaou num causo de corno arrecem inaugurado,
um guaipeca maiado que a sucuri comeu no varjão...
Amiuduou, chegando mesmo à total circunspecção.
Tibungou no sobroso do almoço já virando em janta.
Amanhã o garrão tem que tá pronto pro batido.
-Gunverno não dá camisa pra ninguém não.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A historia de um nome

Zé Badalo, por demasia de gavar o ofício,
ganhou dele o epitáfio e notoriedade.
O Porfíro ria desbragado do cheira batina,
mas uma ponta de inveja assomava-lhe o franzido.
A graça se lhe achava na sisudez domingueira
dada a desimportãnça do serviço de badalar.
Zé pulava cedo, ensebava a carapina rala,
metia-lhe o panamá meticulosamente
e empinava rumo ao campanário.
Deixava a chifruda na porta tombada
e subia as escadas obsequioso:
-Mode os morcego!
Dizia ser a "prantaforma" do cão aquela revoada.
Punha-se ao pé do sino e porfiava uma reza
enquanto enrolava o paieiro piedoso.
As seis em ponto, hora do sol reluzir na campana,
rufava o cacete no sono dos cristãos dominicais.
Pedro Delator esganiçava um agouro ao Zé:
-Fi duma ronca e fuça!
Seguia rumoroso rumo a cozinha
onde Mariinha já tirara o torto
com farofa de torresmo e café.
Tião charreteiro vinha estalando os beiços com o petiço,
que de burro só tinha o nome e os arreios.
O lubuno tinha decorado o cheiro da grama da igreja.
Era dia de batismo na vila branca.
Maria Rolon deu cria do Olímpio sem braço.
Não carecia convite, correio era o zunido.
-Já envinha o Arlindo, seu Tico e a famia,
o Cirino Torto, o Porfiro e um povaréu!
A Cida Bosta ficava ao pé do Frei Luiz
onde a pecha lhe era desviada.
À pia desceu o menino agora por nome Sidinei.
Coisa que Maria apanhara em novela.
-O sonso do Olimpo não parpitou!
Especialista em rezar cobra, quebranto, tiriça e trazer marido,
Ressentia do desagravo do clérigo.
Todos juntos para o ofício na nave translúcida,
assuntavam ainda dormentes mas contritos
o embróglio religioso por demais de comprido.
No ar, acima da embolada de pensamentos,
um gradiente de olores, odores, venturas e desventuras
que subiam aos céus rumo aos portais eternos,
para o registro imediato do nome do menino:
Sidinei Damasceno Da Anunciação,
Agora por nome Neizim de Maria.