domingo, 21 de maio de 2017

Cerrado

O cerrado me entardeceu cedo;
Um cheiro ocre, tão áspero, embriagou.
Telúricas almiscaradas se misturam,
tecendo-me teias imemoriais.
Sendas amarelecidas permeiam-me,
rastros, uréia, pedruscos medram dentro.
O outono finalmente desfolhou-se
e enterneceu um pequizeiro.
A escassez do cerrado ensina;
Aprendo-lhe a economia,
o alheamento, o caos ordeiro.
-Lobinho diz que tem, mas raleia!
Tamanduá assunta formiga no vento,
quero-quero mente o ninho gritando.
Agora tem um tom chumboso nas folhas,
breve agosto virá derriçar o capim.
No cerrado o medo erra caminho:
-Assombração num tem gosto na luz!
E quando a noite évem, devagarinho,
a grilaiada organiza o baile inté tarde!
Trovejou na borda da mata dentro:
-Bugio deu notícia de chuva:
Com três dias aguaceiro é certo!
-Há no cerrado toda sorte de vivente!
Uns veve em cima, outros no embaixo!
Essa lonjura sempre no horizonte,
aumenta a vista da imaginação.
O cerrado encerra tudo no homem,
Inté o palavrório vareia!

segunda-feira, 20 de março de 2017

O lucro

O lucro é bruto
é liquido, é de poucos.
O lucro é raso,
é tísico, é louco.
O lucro é volúvel
é volátil, é voluptuoso.
O lucro entontece
inebria, ensandece.
O lucro esquece,
o lucro vence, empobrece.
O lucro caça,
espreita, entenebrece.
O lucro janta, jacta,
almoça o próprio dorso.
O lucro é osso,
é carne, é sangue,
O lucro é um fosso.
O lucro seca,
exaure, extirpa, enrijece.
O lucro sega,
o lucro suga,
O lucro é doce.
O lucro é ogro,
é cego, é mudo, é mouco.
O lucro é um aleijão,
Quasímodo insone,
o lucro é uma paixão.
O lucro é um vício,
é um dote, é vão.
O lucro é um dom,
é torpe, rufião.
O lucro não é de todos,
é de tudo, é ladrão.
O lucro é um menino no escuro
esperando a ocasião.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Plástico

Eu tenho uma TV!
Minha TV é de plástico.
É de plástico minha TV de plástico.
Nela tudo é de plástico.
O jornal é de plástico,
a notícia é de plástico,
a morte é de plástico
e a vida é de plástico.
A arte é de plástico
e tem até comida de plástico.
A criança é de plástico,
a mulher é de plástico.
É de plástico o sofrimento,
o riso, o gozo, a dor,
o parto, a verdade é de plástico.
A mentira?
É plastificada, é duradoura e dourada,
é organizada, metódica,
ela é negociada ,institucionalizada.
Há uma guerra de plástico,
uma hecatombe de plástico.
Em uma sala de plástico,
há um caro tele-espectador de plástico.
Dedos de plástico, sentimento de plástico.
A beleza, o horror, o bizarro,
a feiura, o desastre é destarte,
é de plástico.
O ódio, o sexo, o parricida, o político
o incesto, a puta é de plástico.
O amor? Ah! acabou;
Acabou o plástico.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Cumbaru

O Cumbaru quando empoema, põe cachos;
Castanhoso, sua gravidez é florada.
Em seu corpo cascaroso emprega formigas,
que oficiam na guarda da castanha nascente,
embalada em concha hermética.
Rígido, não se assanha ao vento moço
quando sacode sua cabeleira folhosa.

Em setembro se despe vagaroso
até que um verde terroso lhe pinte a choupa,
anunciando florezinhas esverdejantes.

É outono, em suas raízes o capim brilha serenoso,
abrindo grilos festeiros que se banham
(Tenho olho para miudezas em geral).

Serventia para mourões e esteios,
só seca com mijo de moça virgem
-Alendeia o povo, não ponho valência!
(O Vardi cismando pau oco).

A garça morena, o João de barro, bem-te-vi,
todo o povo rasteiro évem ver
sua sisudez: Compostura de pau.
Costuram seu canto amarelo à sombra,
em raleando o sol começa a pantomia.
-Jão de barro divurga o tempo da chuva!
-No deconforme do ano muda a porta.

Cumbaru balança os braços avisando a hora,


no derriçar do capim vê-se o caminho  se abrindo,
um cheiro de café acena a volta...

(Colhido em uma conversa com o Vardi)

segunda-feira, 28 de março de 2016

Notícias

-Tiro por eito que nesse inverno ingia,
mode a nevoada que evem madrugando!
Maracanã ta empoleirando im antes da lua branquear.
As tardes já estão com cheiro úmido,
rescendendo ureia nos restolhos da mindinha.
A aragem vem subindo resfriorenta,
pintando no horizonte manchas avermelhadas,
mode o esconder do sol se indo receoso.
É outono, e o mundo tem pressa.
As gentinha rasteira inaugura a noite cricrilando.
As folhas encerraram sua dança, receosas.
Coisa da maior desimportãncia se anuncia.
Coã já deu presságio agourento longe,
mas a seriema recém casada informa
que o mistério da noite se instala escurando.
Não há temor na matinha nem querelas,
só o estalido de pau que endireita o prumo.
-No escurão da noite, vurto divurga o medo!
Mas não tem pouso quando évem o sol.
Em nascendo desanuvia todo arreceio.
- É isso Seu! Me arrecolho que o amanhã é branco!
(As palavras entontecem a fala cedo)

domingo, 27 de março de 2016

Outono

Ah! As manhãs de outono quando évem,
trazendo as primeiras baforados do minuano
e no ar um gosto amargo de erva mate, entontece.
Nas folhas, respingos que tecem luzes matinais,
anunciam noites frientas, filhas de dias curtos.
É outono e o vim-vim na embaúba sabe;
Seu canto-choro vem bulindo com o dentro,
junto à cama de araras que passam rumo à serra,
que a minha avó semeou em seu quintal,
para além de um córrego lambarizento.
Naquele lugaroso que ela inventou devagar,
achei minhas memórias em uma gaveta velha
que rescendia a livros guardados, amarelecidos.
Bem cedo ela escrevia beijus numa porta
reluzindo sob o café soltando seu fumo.
Sendas míticas iam se formando à margem da cerca
coberta de marias-preta que nunca morriam,
porque o bem-te-vi célere semeava cagando.
Foi que dei começo às minhas lições de musgo
dando ponto ao meu olfato para o sórdido.
Aprendi a seguir formigas quando cortam
e sua fala tic-tic, que tem serventia inútil.
-Uédson! Ela chamava amanteigando o beiju.
(Sua fala, ela inventou mode chamar menino).
Deu nome as coisas que ninguém possuía,
embalando com a cantilena do bem-te-vi do cú cagado.
(que só se usava em emergência de sono).
Todo dia era um idílio de simplicitudes novas,
criadas entre refeições olorosas que avisavam cheiro.
Tenho isto bem encerrado, em memórias vivas
que se não são veras, inventei por imitação
aprendidas ao pé da serra da minha avó Bela,
(nome que ela recebeu por ofício de ternura)
sempre outono nela, sempre revividas.

sábado, 26 de março de 2016

Quintal

Há quem eleja palavras por qualidade,
dando a umas serventia de restolho;
Divirjo: o rebotalho me tem em valia valiosa.
Me formei em garimpeiro de monturos,
de estradinhas bordeadas de capim seco,
onde o vim-vim esconde os ovos pintadinhos.
Cantador de coisas ínfimas, me atinei para chãos,
para o rebuliço do vento na restinga do banhado.
Me alteram o cheiro da areia depois da chuva rala,
o chilreio do Maria-ferrugem aninhando.
Me entorpeci no cerrado por suas tardes,
onde um pau seco grita seu oco queimado.
Emudeci com o corre-corre do tambiú no reguinho,
que de tão silente amarelou uma tarde outonal.
Um aluvião abriga sonhos de pedregulhos andarilhos,
cheios de antigas historias de areia e gravetos,
viajantes de paragens onde não há rastro de gente.
Destas miudezas mínimas me tornei vassalo,
coisas inomináveis, coisas de nobre inutilidade.
O que não existe invento, o que não invento calo,
porque quando évem, em silencio barulhoso,
desses que faz a seriema assuntar a quietude,
me faz bordejar numa lembrança matagal,
de um tempo em que eu meninava uma nuvem.
Naquele tempo, diante da serra infantil
que nasceu no quintal de minha avó,
foi que aprendi a desvalia, o inútil,
o cheiro de palavras emboloradas,
o valor do desvario quando embeleza,
que ela guardava num saquitel amarelento,
com lições de vida e morte.
Senhora das estações, tinha tenências para ventos
e sabia de cor outonos e agostos.




sexta-feira, 25 de março de 2016

Monólogo do Vardi

Tenho pra mim seu,
quessimundo tá em desgoverno adiantado.
Na boleia vai um sem eira,
que não se pinge estremecimento
nem com o agudo de gentes derramadas em estrada.
Tenências ninguém carece mais.
E a maleza abunda o corrido
ingual chuva que desaloja tatu.
Vou que os dontonte iam era formando o transcorrido em pressa.
Queimando, cortando pau, barricando rio, sem assomo nem pejo.
Povaréu vem vivendo feito bicho, mas bicho mesmo nem rastro.
Menino agora tem mais maleza que a urutu.
Assombração era im antes que formava,
agora marelou e se escondeu no medo,
que o modo dele agora é medrar o bem em mal.
Não regula mais nada, tudo entortou.
Passarinho canta por lonjura, que tem muito som no mundo.
O silêncio rareou numa carestia deserdada, não tem pouso.
Trasmudaram os tempos e as estações aluaram.
O vento persegue seu rabo altadas da noite
e esquece até a hora de seu turno ventoso.
Ninguém divurga nada nesse trasmundo.
É tudo desórtico, não tem procedência certeira,
évai num trote descavalado e sem rumo.
Donde se dá que nenhum se avizinha,
cada um assunta seu imbigo gordo.
-É seu! Sua graça desconheço proposital,
é em carecência de prosa que discorro,
mas em seu turno, empresto o ouvido,
mode assuntar seu desconforto.
Tresdigo e redigo,
têm tenência? tem nadas...

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O elevador

Ao pé da besta-fera jaz seu Miro empombado.
Traz nas corcovas da cara,  um desconsolo vexado,
vergonhoso de ter perdido a mínima mulher,
que aboletou-se à caixa de metal e sumiu.
Verdade que já pensara em perde-la im antes,
mas a idade, os filhos e netos barganham o querer.
-A gente vai garrando gosto nestrem sô!
Adivinhei um mineiro no amuo escapante,
os cafés, as prosas idas e vindas, as teimas,
tudo ali pendurado no chapéu desesperançoso.
A civilidade matuta empacou-me de saber o corrido,
mas espichei uma dúvida do malogro,
tamanho o desassossego do homem.
Évem o bicho vem descendo barulhoso,
terríveis novas descambaram diligentes.
Ao tocar a campainha, espanto e um salto:
A mulher, medindo uma saca de café sortido,
trazia no sorriso desdém e superioridade
que agora superaram anos de altivez do cuiudo.
Dentro do monstro de lata muito polida,
ela era a garantia de salvação e humildade,
vez que o pavor  castrou ao Miro a intrepidez.
-Amansei burro brabo; Inté onça cacei,
mas o diabo de "levador" assenta não sô!
Confessou firmando o garrão mode queda.
- Cabra froxo! Assanhou dona Batica,
vingança boa que ela sorria se ria.
Quando a bocarra regurgitou o Miro,
não cogitou salvar a pobre do tinhoso metálico.
Alçou longe seu passo-légua rumo à sua honra,
desencilhada na porteira da modernidade.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Bolicho

No ar um cheiro de fumo e pão dormido
que se mistura ao do jornal embrulhoso.
Grandes prateleiras guarnecidas de escassez
deferencia o piso de madeira,
lhenado de sacos de farinha a granel,
sempre batizadas por um bocado à boca.
Cachaça, vermute, raizada e conhaque;
eram o bem maior da guarda de Fogoió,
sempre encostado ao balcão, media espaçoso
a fundeza daquele mundo besta que passava.
Menino menor que a bicicleta escanchava,
outro sacolejava nas ancas da mãe criança,
e um homem velho media a largura dos passos.
O bolicho era uma janela para o além;
alem das coisas, das caras, além do chão.
Cá dentro pode-se ver o longe-longe
que ninguém conta e nem assoma.
Fogoió assiste o passante e o corrente
não se movendo muito mode o calor.
Armado com um cacho de buriti seco,
espanta moscas funcionárias que lhe acometem.
O bolicho é o mundo? O mundo é o bolicho?
Não sabe nem ensina: Serve o freguês indês.
Um gole, uma carranca e um: - Será que chove?
- Sei não que três antonte deu uma aguada danada!
Revés e entrevés, segue a prosa rumo à morte,
que assunta o assunto bebericando desde o mudalém.
Talagada mais e os santos jazem todos bêbados.
É hora de fechar, mas os vãos denunciam o sol poente.
Um cheiro de comida corre a rua aos gritos,
anunciando que o dia abriu a porta da noite
e deixou entrar o gozo de descanso e silencio.
Vê que o mundo é o mesmo corrido vagaroso?
Mas no de dentro é que se sabe o quanto resta,
pera fechar a porta sem fresta nem réstia,
nem gentes, nem dentes, só o oco do mundo,
mundo novo, de onde não se tem notícia,

onde o bolicheiro não vende nem mente verdade.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Usina

Tenho pena do canavial quando deita,
sua feiura esplêndida atordoa o verde.
Em suas ruelas arrumadas a morte
montou seu acampamento e espera.
Gentes sórdidas comandam seu doce,
organizam seu bagaço em montes
e esperam o jorro volátil que fascina.

Tenho medo do canavial quando brota.
Sua folha cheia de tanta ganância
faz do eito um campo mesquinho,
nem a saúva pode com seu pleito.
Aviltaram a doçura da caiana,
sujaram os rios com seu sangue.

Tenho pena da cana quando mói.
Em seu remoer e queimar infinito,
queima consigo a gentinha rasteira
o povinho que vive em baixo,
povinho alado, povinho pardo.

Tenho pena da cana quando queima.
Em seu fragor, o progresso se avoluma
em montões de cinza e pó inúteis,
que na distância de um olho espreita
a anta quando sai pra beber,
o bandeira, o tatu, o mateiro.

Tenho pena da cana quando amontoa
índios, brancos e negros em galpões,
a espera de sua porção de açúcar e sal.

Tenho pena da cana quando avulta.
E seus senhores encastelados,
sonham com outro pau a queimar,
outra sombra, outra semente, outro regato,
insignificantes, inúteis e que não rendem.

Tenho pena da cana quando lucra
e seu dom de adoçar corroí como ácido,
o chão, o mato, a lua quando vem espiar.

Tenho pena da cana e sua nobreza
agora instrumento de açoites e pejo.

Tenho pena do João dos canaviais,
do Cabral, do Rosa, do Rego
que já não vemos mais.


sábado, 25 de julho de 2015

Joalheiro

Há por certo muitos Raimundos,
mas um, notório por não existir de fato
posto que inventado, sua voz é fado.
E deste que falo é sem rima
por sobrenome Batista, prima
barbear menos, que por contar causo.
Em Pedro Gomes, reza que assistia
seu ofício de navalha, tesouro e pia
embora montasse melhor em inventos,
com cela e arreios, nos lombos da fantasia.
Havia quem lhe cresse a porfia, como eu,
menino de antanhos , camafeu que ouvia.
Era por sombra de antigamentes que se dava
causo de onça assombrosa que morreu
ou lobisomem, - E inté arma penada!
Dai quem temia era o menino eu
que no embaixo, assuntoso idéiava.
Em seu confessório tosquiava gentes
que ovelhavam aquele mundaréco,
sempre planejando escapadas capitais,
posto que eram sonhos e venturas
que merejavam as ruelas abissais.
Eu lá, meninava um ouvido desconfiado,
aprendendo a embolorar palavras
que ainda hoje, daquele tempo alijado
recolho pedras de antigas lavras.

domingo, 19 de julho de 2015

Outro agosto

Agosto abriu sua boca fria e me engoliu;
Sourveu-me fastioso, lerdo e sem volúpia.
Pude ver por dentro seus dentes inquietos
moendo os restolhos já ressequidos da mindinha.
Um rosilho, roncoio de dois anos troteia esparçoso,
arremete bufando contra o baio e arrefece.
Nas copas, um silvo ventoso anuncia já a prenhês do mundo,
é tempo de as árvores empoemarem folhas.
Seus estames se soltam sem ruído e flanam até o chão.
Nas cidades, calçadas sórdidas ficam coloridas
e traduzem uma infinidade de matizes farfalhantes.
Coleciono agostos desde menino lá em Pedro Gomes.
Tenho uma caixa cheia de ventos e palavras inúteis:
Cisma, toleima e im'antes são destas que ajuntei.
Tenho ventos amarecelidos. Uso para desassombro.
Achei no monturo lá perdido esta: Rufião.
O Vardi que me amostrou e ensinou o sentido:
-Desbaguado que sobe na vaca mode marcar o cio!
Dai é só apartar e largar o brasino no pasto!
-Cê tem as letra guri, mas eu tenho garrão! Anuviou.
Tem também lida: desdita e tresantotem. Só por mode percisão.
-O Cuiudo não enjeita briga nem montaria! Ensina.
Eu, ventoso, olho pra dentro de um mourão corrompido,
que abrigou um vespão de riscas brancas nas patas.
A fala do Vardi vai afundando no buxo de agosto,
enquanto tento contar as cores que o bambu faz quando estala.
Sei a voz de todo pau quando geme empurrado pelo vento.
Aprendi que o rufião pega teima. -Causo da mardade!
-Presta não que morde a tropa e fica pulador!
Ensinou que o tordilho "a gente não divurga",
na boca da noite. -Tem que escuitar bem!
Tudo ponho no debaixo, por serventia que têm
todas estas coisas, são de grande utilidade e valor.





sexta-feira, 17 de julho de 2015

O barbeiro

Bem embaixo de um mundo esquecido em gaveta
fica esse lugaroso extinto em preto e branco,
onde algumas cores pintam lembranças meninas
aboletadas em uma cadeira de barbeiro,
cujo espaldar verdejento inclina-se para o nunca
e seu braço de madeira encerra certa sobriedade,
posto que assistia-lhe Raimundo (Por patente Batista).
Seus óculos agregavam-lhe certa notoriedade pública,
tal qual o padre, o alcaide, a parteira
e certo doido municipal ainda em serviço.
Contígua à navalha hesitante, cozia tia Ana
(Sua empresa diária era perfumar).
Um feijão de cheiro que pespegava dentro,
caldava seu gosto marrom até o pé da serra
encostada numa nuvem que morava lá desde antes.
(Pedro Gomes governava toda poesia que havia
albergada em alfogers do mascate Zé Bezerra).
Vinha do fundo uma cantilena gemida em stacatos
que anunciavam o caldo grosso e arroz soltinho.
O barbeiro provia cabelo e historia de onça, assombração,
valentia e certo lobisomem lá no olho d'água.
-Cunhece não? Bicho malino que é o cão!
-Só disvira pra homem em curral de merda!
Tic, tic, chap, chap a tesoura sóbria tinia.
A correia de couro mode afiar desconfiava a prosa,
o freguês confiado, com a cara cheia de chantili
nalguma vez gemia um: -hum! Oxente! Arre égua.
Nesse batido ia e desvinha ele porfiando.
Foi Raimundando longe-longe o Batista.
Fez filhos e netos, mas nem um deu barbeiro.
Seu espólio ficou-me por herança poética.
A serra derreteu a nuvem que era de algodão
e deixou no chão a marca de um tempo roto,
calcado pelos pés impiedosos do progresso.


O ninho

Uma velho caminhão obtuso passa branco.
Sua ignorância das crias é pressentida
e as cabeças não se movem por ele,
no entanto, a bicicleta com um menino vermelho
gira as parabólicas cheias de olhos sob a grama,
mas o arreceio desvanece, e o casal segue sua prosa.
Em corujês, tudo se diz com olhares ruidosos
em amarelo, perspintado por manchinhas pretas
e a bola 
que sabe tudo olhosa no meio , assente.
Estão emburacadas ali em sua casa chão faz pouco,
causo que já conheciam o lugar de im'antes da praça,
do homem-pedra, do chão preto e daquele vum que vum que vai e é'vem.
Plantaram naquele buraco antigo quatro sementes
das quais vingaram três, mode que uma adubou.
Sabedoria de coruja não tem lágrima
porque o que é'vem, é'vai do mesmo modo o dom,
tanto quanto o vento que ensina as estações.
Cá, vejo elas fingindo ninho num mourão triste,
que é assim o modo delas desorientar:
"Ausência é silêncio bem explicado,
serve de cuidado dobrado".
Provérbio corujal que todas sabem.
-Inté lá na escola delas é regra viu seu moço!
Hum hum! (Que esse sou eu assuntando).
Veio-me à memória os óculos, a régua,
a gravata e o chapéu do professor coruja.
-Escolei uma lição de buraco e cuidado hoje! Perspensei.
-Coisas que im antes sinhor nem devia de saber!
-Nunca se sabe quando tem percisão de ninho né?
-Hum hum! (Corujei mode encerrar, a prosa ia lerda).

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Malassombro


O poeta preside o monturo
e seu ofício é inútil aos construtores,
mas ele sabe coisas que não interessa
e delas nenhuma é pão:
Lobisomem se esquece quando desvira
e o rio guaçú tem carência de sufixo,
posto que sua anchura é fingida.
A seriema guarda seu ninho com ausência
e o papagaio gringo tem a fala verde.
Criança que brinca em guavirais
tem tenências a juntar palavras,
mas em tempo de chuva rala com sol,
os trieiros exalam cheiros que entorpecem.
O quero-quero engana o ninho no valado
mas o lobinho encherga  embaixo da terra.
Todo esse saber não serve para asfalto
e é inútil para fundações.
Isto é certo como o vespão quando enterra.

sábado, 15 de novembro de 2014

Jatobá

Jatobá não tem pressa.
Tece sua pedra-fruta como quem já sabe,
em sua pele cascarosa aquiesce uma lição:
O adensar-se demorado, mojando a carne.
Amigo de antas e cotias vespertinas,
ele sabe seu tempo e não desespera o doce.
Herdei de minha avó, que com o olho no natural
aprendemos o homem em seu fazimento.
Sua sabedoria era menos do etéreo
que das coisas chãs, de raízes e telúricas.
Dela aprendi a desfaçatez do macaúba solteiro,
que desdenha pasto e sobe pra ver o bem longe,
deitando no chão um lastro de coquinhos amarelos.
Casca de pau também é fértil pra poesia;
Sempre tem uma orelha de pau lírica no eito.
De todas os grotões do mundo
só o cerrado me entorpece cedo.
Acho que me inaugurei em pé de serra,
no Marracabelo,onde desvendei o inútil.
Minha sina tem sido aprender a várzea,
o lajedo, a pedra esverdeando no leito,
rastro de anta quando alúa mode pegar cria,
dessas coisas que não tem serventia útil.
Me pespegam sempre ideias de limbo,
de trieiros e guaviras amanhecidas,
dessas coisas que em outubro ensejam
um mundo que se refaz do homem.
Im`antes do homem se inventar
o monturo tinha sua própria lei
e o mais era o ir e vir do vento
levando o cio, trazendo semente.
O que regulava era o caos do verde.
Agora bicho tem tenência e arreceio
que o mato já tem dono e cerca...

domingo, 21 de setembro de 2014

Uma historia de caçador

Mané Tiriça por serventia de caçador
era destemor pelas bandas do vinte e um.
Nossinhora por guia de arreceio assombroso
trazia no peito pendurada em amuleto sortoso.
Sem carecência de convívio com gentes,
alongava vê se achava cateto ou capivara.
Em não tendo, se valia de seriema ou tatu
mormente onça e bandeira tal e qual.
Conviviam na mesma cara maleitosa,
certo amor por penosos de menor monta
e a sanha pelo arfar tomboso da anta quando espicha.
Era assim mofino com o chupim barroso, o japu-preto
e o coleirinha, que mirava por despropósito de susto.
Mas em um dia de vento que entorta o corrido,
pairou sobre o quengo um juízo, um fragor de alma.
Q'esse negrume vinha lhe consumindo o quieto:
-Desde o im'antes, de tempos que num alembro!
Por desamor de tudo, ia-se já quase devorado,
tanto pasmo, que lhe passava já o esfolamento,
o sangue, a brancura dos olhos embaçando...
A terçã tingiu sua pela amarelosa e o dentro,
tanto e quanto que agora esmorecia os feitos.
Menos por gosto que honra, limpava o cano
e amargava a boca desde o ventre, antecipado.
-Devia de ser a cria deixada à lua cheia q'elaveis!
(Um balote certeiro num mateiro filhotado)
O sucedido enojava-lhe as mãos trêmulas.
Não podendo mais sustentar notoriedade,
caçadas sempre com escusas falseadas
Pois-se em reza mode sossego, mas qual...
Era o balido mais que o estampido, um soco
no estômago já enojado de todo apreceio.
Finou-se assim o Mané Tiriça por sobrenome caça,
caçado pela tísica dor d'alma que consome mole
a carne, o querer e a certeza que corre dentro...

...


(Colhido em um assuntamento de prosa que passava)




segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O anúncio

O sol põe-se a espiar o mundaréu
por detrás do morro que sustenta o céu.
É nascente e évem sestroso catucar o sono,
mode derrubar as últimas gotinhas da guanchuma renitente,
vaca tosa tudo que verdeia e manda pro bucho.
Sopra com as ventas e depois arremata os cotocos,
deixando no ar um cheiro esverdeante.
O inverno já vai arretirando seus arreios
mode a primavera pintar o chão de amarelo.
O chapéu-de-frade inda não marelou flores
(mas é já já que vem o disgunverno do tempo)
Na casa feita em baixo de um angico torpe,
sapo anuncia as últimas chuvas se arrumando.
Desconfio; A gia diz que é certeiro o agouro.
Sou um homem da ordem das miudezas,
valorizo o namoro de grilos e gafanhotos. Confio!
O jãodebarro persegue o cri cri rasteiro.
Suas empresas são: Assuntar olho de pau
e bisbilhotar a gente rala que mora na grama.
O dia começa a derramar sombras no grotão
e a cantoria agora virou matinada
no entorno da hora da borrasca,
um diz que cedo, o outro: -É noite!
Há quem pergunte, há quem afirme,
mas no angico o radio diz que é tarde.
O povim rasteiro sempre sabe d’água.
Atras do morro manchas alaranjadas
Vão dando ao lusco-fusco tons de ocaso.
Um hálito resfriento subido do grotão,
da aviso de frescura que despega
e o gado já se reúne mode a prosa.
Pagaios agora pintam o céu de negro,
vão preparar o verde do dia seguinte.
No angico o locutor já parece bêbado,
sua voz molhada já troveja no horizonte
e as primeiras gotas dão aviso urgente:
Chuva, chuva.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Uma casa de esquina

Casa velha de olhos baços
virando as esquinas do tempo
já desbotando caras e trejeitos
esquecidas em seus recônditos.
Em sua saia, chuvas pintaram reticentes
manchas escuras sobre a tinta titubeante.
Nomes, caras e odores deixados de ontem
contam histórias de glórias e perfídias:
Uns moços com fogo nos olhos;
uns velhos com tristezas juvenis
que nela passaram sóis e invernos,
lhe pejando e pespegando vicissitudes.
Seus portais já encanecidos
sustentaram sonhos e desditas,
deixando-lhe escandecências.
Sua pele já não tem mais o mesmo tom,
nem o viço, nem os vícios de anteontem.
Casa velha de mata-juntas desjuntas
se esgueirando entre moças de alvenaria,
belas fachadas e grades portentosas.
Velha casa, de casais e descasados
de um tempo que o tempo esqueceu.
Velha moldura que incomoda o transeunte
por sua bela feiura de casa carcomida.
E vai ringindo sua cumeeira torta,
com esperanças findas de que por esquecimento
pensem que a velha casa da esquina,
já está há muito morta.