quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Aguaceiro

A beleza de agosto está na bagaceira,
no crepitar do capinzeiro tórrido.
na anchura de um valado seco,
no prim-prim-prim de um rego lerdo.
...
Uma fumacinha subiu na lonjura,
é queima que inaugura a cana,
e um estalido anunciou água dentro,
mas o fogo lambeu sereno, sem pressa.
Redemoinho mentiu chuva breve:
-Tem capiroto que dança nele!
Coisa de se pegar em peneira e engarrafar.
-Qual! É astúcia do vento barulhoso!
-Se ocê num querdita num desdenha sô;
que é bicho assombroso de outro mundo!
Lenda de caboclo besta, sismoso sempre.
...
Sei de um segredo que ninguém conhece:
Um pedrusco avermelhado que escondi no morrote.
Sua pele sempre lisa, sua solidão me põe inveja.
Sou pessoa de gravetos, de cascas e estames partidos,
tenho apreço por grilos marrons e besouros cegos.
Uma nuvenzinha se arrumou no horizonte,
mas nem chuva nem vento, só secura.
A capoeira vai se organizando mode a noite,
que évem solerte, trazendo um bafo úmido,
um restolho de esperança, um alento ao seco.
Entre mugidos e grunhidos nos baixios,
um caga-cebo assoviou auspicioso,
e o coleirinha banhou-se na areia morna.
Tanto festejo, tanta farra nas copas,
agosto anuncia seu cansaço, breve vem aguaceiro.

domingo, 25 de junho de 2017

Grotões

Não há poesia na vida
nem na morte que olha
pela porta entreaberta,
não há poesia na libélula louca
nem no menino que corre.
Não há poesia naquele mourão,
nem no bem-te-vi inconstante,
que mercadeja a Embaúba doce.
Ela é um pangaré hesitante,
sempre mambembe, moura,
de idéias oscas como a vaca.
Carrega nua pela estradinha
suas trempes etéreas, devaneios,
desvarios inúteis sobre paus,
penas e a serralha de flor branca.
Quem se ocupa com suas lérias
perde tempo e nada ajunta.
É ópio e fumega constante
sempre adernando, sempre tosca.
Versa ora sobre um rio ancho,
ou aquele rego d'água tiubeante
que tirilinta um buriburi infinito.
Não constrói nenhuma valia,
só sabe de coisas do cerrado,
do fogo que correu bicho,
da florzinha que despega voando,
pelo desalinho que o vento teceu
nas pequenas touceiras de capim,
na tarde oscilante, somenos:
Como quando a formiga assunta o rumo,
ou quando um João-de-barro dá seu pulo-passo.
Nome de paus, de gentes, de bardas,
histórias que coisam a noite quando coisa.
Na poesia a realidade se alonga na brenha
e da lugar a nadas, a eitos vasios, a grotões.
A poesia é uma loca de antanhos.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

As vendedoras

Na avenida Calógeras,
moças ocas esperam
na porta inconsciente,
soslaio no séquito.
Espera o freguês, o paciente,
o impeachment, o golpe transeunte.
Passam velhos, moços cansados,
passam meninos, meninas casadas.
Todos passaram...
Passou o dia, passaram os anos,
a moda passou, elas ficaram.
as moças ocas brotaram,
seus olhos extenuados secaram.
Mas o tempo ali não passou,
foi ficando, criando arestas,
deixando marcas empoeiradas,
marcas de desesperança, esperando.
O verdugo das horas marcou incessante
no descompasso de um tempo antigo,
sempre o mesmo modo, redundante.
As moças aquiesceram, sempre ocas,
repetindo o mesmo mantra
num muchocho inaudível:
O preço, o desconto, o clima...
Bancas repletas de desejos rotos,
que o sol marcou graciosamente,
em tons de amarelo ouro, desbotando.
A conversa ensaiada, reza o mesmo:
O desgoverno, o furto, a propina.
Essas moças que regem esse mundo oco,
estão lá para fazer esquecer o desgosto
sabendo que cada passante vai oco,
buscando o motivo de dar o próximo passo,
passos ocos ecoam nas moças ocas
em seu mundo oco.
-Chegar freguês! É promoção!

Fastio

Viver sempre na superfície,
Nos valados, no rasteiro, no grotão.
O raso é sempre seguro, não intima,
onde o mormaço oscila uma poça
e uma poeirinha besta açoita.
Sou do raso, da superfície,
rejeito profundidades e inquérito.
Quero sempre o inútil do cerrado,
a fome do lobinho, o mormaço,
o sol que finda amarelando o dia
para a noite já se inaugurando.
As demandas dos homens cansam,
sempre a mesma ladainha, o mesmo choro,
a mesma reza inútil, a mesma fome.
Tudo é solene, tudo é sagrado:
A morte, o nascimento, os laços,
A dor, a alegria, tudo é pesado.
Clérigos roçam baixo, o pasto
com sua nobreza régia, sua voz calma,
seus arreios levam seixos santos,
ossos, panos,lágrimas, lâminas etéreas.
Mas o grotão tem seu próprio lume,
Sua prece sinuosa, sua volúpia,
seu burburinho aquoso, seu nume.
O carcará pinçou um pintainho
e subiu seu voo legítimo
Uma rabeca lambeu um ingazeiro,
seco, seu dorso branqueia a casca.
O inverno no cerrado é amarelo
no capim que cresta derriçoso.
Querelas estão nas copas por pouso,
não há necessidade de ordem.
Ao fim do sol, a noite negrurou
e as manhas virão eternamente.
-Percisa não seu moço!
O que évem sempre já estava!

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Pé de serra

Naquele mundico antigo,
Lá, naquele lugarojo empedernido,
onde o céu descansa na serra,
um par de asas desenhado em cartilha,
passarou uma nuvem encostada.
Piooú! Piooú! Agourou penoso em assomo.
Flap! Flap! Desenha no ar um risco
e suja rumo do sol pastoso.
Na estradela espichada na brenha,
pedruscos encarnados, silenciosamente
querelam um mormaço ondoso
que sobe fumacento no meio do dia.
-Digue! Digue tu que desdigo!
-Digo não que estou com pressa!
Anum tergiversa com o branco.
Fogo-pagou disconcorda:
Errou! Errou!
É sempre agosto nesse lugar
guardado em gavetas de minha avó.
Estão dentro, um cheiro amarelado
de livros que se esqueceram.
Lá, os homens são pra ser lidos,
histórias de assombros medonhos.
-Mode que lobisomem é lendoso!
Desafia o Raimundo em valentia.
-Mas o homem é besta-fera!
(Ensina a didática da corrutela).
Um birim, birim de corguinho intermitente
é a música constante no quintal,
onde as manhãs são tardias
e as tardes matinais.
É a ordem, onde todo desacordo cessa,
onde o tempo desencoraja o relojoeiro,
Onde deixei minhas memórias
guardadas em gavetas abissais,
que se abrem com chaves etéreas.
Lugar inventado no Mato Grosso,
no marracabelo, ao pé da serra.

domingo, 21 de maio de 2017

Cerrado

O cerrado me entardeceu cedo;
Um cheiro ocre, tão áspero, embriaga.
Telúricas almiscaradas se misturam,
tecendo-me teias imemoriais.
Sendas amarelecidas permeiam-lhe,
rastros, uréia, pedruscos medram dentro.
O outono finalmente desfolhou-se
e enterneceu um pequizeiro.
A escassez do cerrado ensina;
Aprendo-lhe a economia,
o alheamento, o caos ordeiro.
-Lobinho diz que tem, mas raleia!
Tamanduá assunta formiga no vento,
Quero-quero mente o ninho gritando.
Agora tem um tom chumbo nas folhas,
Breve agosto virá derriçar o capim.
No cerrado o medo erra caminho:
-Assombração num tem gosto na luz!
E quando a noite évem, devagarinho,
a grilaiada organiza o baile inté tarde!
Trovejou na borda da mata dentro:
-Bugio deu notícia de chuva,
Com três dias aguaceiro é certo!
-Há no cerrado toda sorte de vivente!
Uns veve em cima, outros embaixo!
Essa lonjura sempre no horizonte,
aumenta a vista e a imaginação.
O cerrado encerra tudo no homem.

segunda-feira, 20 de março de 2017

O lucro

O lucro é bruto
É liquido, é de poucos.
O lucro é raso,
é tísico, é louco.
O lucro é volúvel
é volátil, é voluptuoso.
O lucro entontece
inebria, ensandece.
O lucro esquece,
o lucro vence, empobrece.
O lucro caça,
espreita, entenebrece.
O lucro janta, jacta,
almoça o próprio dorso.
O lucro é osso,
é carne, é sangue,
O lucro é um fosso.
O lucro seca,
exaure, extirpa, enrijece.
O lucro sega,
o lucro suga,
O lucro é doce.
O lucro é ogro,
é cego, é mudo, é mouco.
O lucro é um aleijão,
Quasímodo insone,
O lucro é uma paixão.
O lucro é um vício,
é um dote, é vão.
O lucro é um dom,
é torpe, rufião.
O lucro não é de todos,
é de tudo, é ladrão.
O lucro é um menino no escuro
esperando a ocasião.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Plástico

Eu tenho uma TV
Minha TV é de plástico
É de plástico minha TV de plástico.
Nela tudo é de plástico.
O jornal é de plástico,
a notícia é de plástico,
a morte é de plástico
e a vida é de plástico.
A arte é de plástico
e tem até comida de plástico.
A criança é de plástico,
a mulher é de plástico.
É de plástico o sofrimento,
o riso, o gozo, a dor,
o parto, a verdade é de plástico.
A mentira?
É plastificada, é duradoura e dourada,
é organizada, metódica,
ela é negociada ,institucionalizada.
Há uma guerra de plástico,
uma hecatombe de plástico.
Em uma sala de plástico,
Há um caro tele-espectador de plástico.
Dedos de plástico, sentimento de plástico.
A beleza, o horror, o bizarro,
a feiura, o desastre é destarte,
é de plástico.
O ódio, o sexo, o parricida, o político
o incesto, a puta é de plástico.
O amor? Ah! acabou;
Acabou o plástico.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Cumbaru

O Cumbaru quando empoema, põe cachos;
Castanhoso, sua gravidez é florada.
Em seu corpo cascaroso emprega formigas,
que oficiam na guarda da castanha nascente,
embalada em concha hermética.
Rígido, não se assanha ao vento moço
quando sacode sua cabeleira folhosa.

Em setembro se despe vagaroso
até que um verde terroso lhe pinte a choupa,
anunciando florezinhas esverdejantes.

É outono, em suas raízes o capim brilha serenoso,
abrindo grilos festeiros que se banham
(Tenho olho para miudezas em geral).

Serventia para mourões e esteios,
só seca com mijo de moça virgem
-Alendeia o povo, não ponho confiança!
(O Vardi cismando pau).

A garça morena, o João de barro, bem-te-vi,
todo o povo rasteiro évem ver
sua sisudez: Compostura de pau.
Costuram seu canto amarelo à sombra,
em raleando o sol começa a pantomia.
-Jão de barro divurga o tempo da chuva!
-No deconforme do ano muda a porta.

Cumbaru balança os braços avisando a hora,
no derriçar do capim vê-se o caminho  se abrindo,
um cheiro de café acena a volta...

segunda-feira, 28 de março de 2016

Notícias

-Tiro por eito que nesse inverno ingia,
mode a nevoada que evem madrugando!
Maracanã ta empoleirando im antes da lua branquear.
As tardes já estão com cheiro úmido,
rescendendo ureia nos restolhos da mindinha.
A aragem vem subindo resfriorenta,
pintando no horizonte manchas avermelhadas,
mode o esconder do sol se indo receoso.
É outono, e o mundo tem pressa.
As gentinha rasteira inaugura a noite cricrilando.
As folhas encerraram sua dança, receosas.
Coisa da maior desimportãncia se anuncia.
Coã já deu presságio agourento longe,
mas a seriema recém casada informa
que o mistério da noite se instala escurando.
Não há temor na matinha nem querelas,
só o estalido de pau que endireita o prumo.
-No escurão da noite vurto divurga o medo!
Mas não tem pouso quando évem o sol.
Em nascendo desanuvia todo arreceio.
- É isso seu! Me arrecolho que o amanhã é branco!

domingo, 27 de março de 2016

Outono

Há! As manhãs de outono quando évem,
trazendo as primeiras baforados do minuano
e no ar um gosto amargo de erva mate, entontece.
Nas folhas, respingos que tecem luzes matinais,
anunciam noites frientas, filhas de dias curtos.
É outono e o vim-vim na imbaúba sabe;
Seu canto-choro vem bulindo com o dentro,
junto à cama de araras que passam rumo à serra,
que a minha avó semeou em seu quintal,
para além de um córrego lambarizento.
Naquele lugaroso que ela inventou devagar,
achei minhas memórias em uma gaveta velha
que rescendia a livros guardados, amarelecidos.
Bem cedo ela escrevia beijus numa porta
reluzindo sob o café soltando seu fumo.
Sendas míticas iam se formando à margem da cerca
coberta de marias-preta que nunca morriam,
porque o bem-te-vi célere semeava cagando.
Foi que dei começo às minhas lições de musgo
dando ponto ao meu olfato para o sórdido.
Aprendi a seguir formigas quando cortam
e sua fala tic-tic, que tem serventia inútil.
-Uédson! Ela chamava manteigando o beiju.
(Sua fala, ela inventou mode chamar menino).
Deu nome as coisas que ninguém possuía,
embalando com a cantilena do bem-te-vi do cú cagado.
(que só se usava em emergência de sono).
Todo dia era um idílio de simplicitudes novas,
criadas entre refeições olorosas que avisavam.
Tenho isto bem encerrado, em memórias vivas
que se não são veras, inventei por imitação
aprendidas ao pé da serra da minha avó Bela,
sempre outono, sempre revividas,

sábado, 26 de março de 2016

Quintal

Há quem eleja palavras por qualidade,
dando a umas serventia de restolho;
Divirjo: o rebotalho me tem em valia valiosa.
Me formei em garimpeiro de monturos,
de estradinhas bordeadas de capim seco,
onde o vim-vim esconde os ovos pintadinhos.
Cantador de coisas ínfimas, me atinei para baixo,
para o rebuliço do vento na restinga do banhado.
Me alteram o cheiro da areia depois da chuva rala,
o chilreio do Maria-ferrugem aninhando.
Me entorpeci no cerrado por suas tardes,
onde um pau seco grita seu oco queimado.
Emudeci com o corre-corre do tambiú no reguinho,
que de tão silente amarelou uma tarde outonal.
Um aluvião abriga sonhos de pedregulhos andarilhos,
cheios de antigas historias de areia e gravetos,
viajantes de paragens onde não há rastro de gente.
Destas miudezas mínimas me tornei vassalo,
coisas inomináveis, coisas de nobre inutilidade.
O que não existe invento, o que não invento calo,
porque quando évem, em silencio barulhoso,
desses que faz a seriema assuntar a quietude,
me faz bordejar numa lembrança matagal,
de um tempo em que eu meninava uma nuvem.
Naquele tempo, diante da serra infantil
que nasceu no quintal de minha avó,
foi que aprendi a desvalia, o inútil,
o cheiro de palavras emboloradas,
o valor do desvario quando embeleza,
que ela guardava num saquitel amarelento,
com lições de vida e morte.
Senhora das estações, tinha tenências para ventos
e sabia de cor outonos e agostos.




sexta-feira, 25 de março de 2016

Monólogo de um passante

Tenho pra mim seu,
Quessimundo tá em desgoverno adiantado.
Na boleia vai um sem eira,
que não se pinge estremecimento
nem com o agudo de gentes derramadas em estrada.
Tenencias ninguém carece mais.
E a maleza abunda o corrido
Ingual chuva que desaloja tatu.
Vou que os dontonte iam era formando o transcorrido em pressa.
Queimando, cortando pau, barricando rio, sem assomo nem pejo.
Povaréu vem vivendo feito bicho, mas bicho mesmo nem rastro.
Menino agora tem mais maleza que a urutu.
Assombração era im antes que formava,
agora marelou e se escondeu no medo,
que o modo dele agora é medrar o bem em mal.
Não regula mais nada, tudo entortou.
Passarinho canta por lonjura, que tem muito som no mundo.
O silêncio rareou numa carestia deserdada, não tem pouso.
Trasmudaram os tempos e as estações aluaram.
O vento persegue seu rabo altadas da noite
e esquece até a hora de seu turno ventoso.
Ninguém divurga nada nesse trasmundo.
É tudo desórtico, não tem procedência certeira,
évai num trote descavalado e sem rumo.
Donde se dá que nenhum se avizinha,
cada um assunta seu imbigo gordo.
-É seu! Sua graça desconheço proposital,
É em carecência de prosa que discorro,
mas em seu turno, empresto o ouvido
mode assuntar seu desconforto.
Tresdigo.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O elevador

Ao pé da besta-fera jaz seu Miro empombado.
Traz no semblante alto um desconsolo vexado,
vergonhoso de ter perdido a mínima mulher,
que aboletou-se a caixa de metal e sumiu.
Verdade que já pensou em perde-la antes,
mas a idade, os filhos e netos mudam o querer.
-A gente vai garrando gosto nestrem sô!
Adivinhei um mineiro no amuo escapante,
os cafés, as prosas idas e vindas, as teimas
tudo ali pendurado no chapéu desesperançoso.
A civilidade empacou-me de saber o corrido,
mas espichei uma dúvida do malogro
tamanho o desassossego do homem.
O bicho vem descendo barulhoso
terríveis novas devem vir diligentes.
Ao tocar a campainha, espanto e um salto,
a mulher, medindo uma saca de café sortido
trazia no sorriso desdém e superioridade,
que agora superaram anos de altivez do marido.
Dentro do monstro de lata muito polida,
ela era a garantia de salvação e humildade,
vez que o pavor lhe castrou a intrepidez.
-Amansei burro brabo; Inté cacei onça,
mas o diabo de "levador" assenta não!
confessou firmando o garrão mode queda.
- Cabra froxo! Assanhou dona Batica.
Vingança boa que ela sorria-sorria.
Quando a bocarra regurgitou o Miro
não cogitou salvar a pobre do tinhoso.
Alçou longe seu passo-légua rumo à sua honra,
desencilhada na porteira da modernidade.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Bolicho

No ar um cheiro de fumo e pão dormido
que se mistura ao do jornal para embrulhos.
Grandes prateleiras guarnecidas de escassez
anelam o chão, dono de sacos de farinha a granel,
sempre batizadas por um bocado à boca.
Cachaça, vermute, raizada e conhaque;
eram o bem maior da guarda de Fogoió,
sempre encostado ao balcão, media espaçoso
a fundeza daquele mundo besta que passava.
Menino menor que a bicicleta escanchava,
outro sacolejava nas ancas da mãe criança,
e um homem velho media a largura dos passos.
O bolicho era uma janela para o além;
alem das coisas, das caras, além do chão.
Cá dentro pode-se ver o longe-longe
que ninguém conta e nem assoma.
Fogoió assiste o passante e o corrente
não se movendo muito mode o calor.
Armado com um cacho de buriti seco,
espanta moscas funcionárias que lhe acometem.
O bolicho é o mundo? O mundo é o bolicho?
Não sabe nem ensina: Serve o freguês indês.
Um gole, uma carranca e um: - Será que chove?
- Sei não que três antonte deu uma aguada danada!
Revés e entrevés, segue a prosa rumo à morte,
que assunta o assunto bebericando desde o éden.
Talagada mais e os santos jazem todos bêbados.
É hora de fechar,mas os vãos denunciam o sol poente.
Um cheiro de comida corre a rua aos gritos,
anunciando que o dia abriu a porta da noite
e deixou entrar o gozo de descanso e silencio.
Vê que o mundo é o mesmo corrido vagaroso?
Mas no de dentro é que se sabe o quanto resta,
pera fechar a porta sem fresta nem réstia,
nem gentes, nem dentes, só o oco do mundo,
mundo novo, de onde não se tem notícia,
onde o bolicheiro não vende nem mente.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Usina

Tenho pena do canavial quando deita,
sua feiura esplêndida atordoa o verde.
Em suas ruelas arrumadas a morte
montou seu acampamento e espera.
Gentes sórdidas comandam seu doce,
organizam seu bagaço em montes
e esperam o jorro volátil que fascina.

Tenho medo do canavial quando brota.
Sua folha cheia de tanta ganância
faz do eito um campo mesquinho,
nem a saúva pode com seu pleito.
Aviltaram a doçura da caiana,
sujaram os rios com seu sangue.

Tenho pena da cana quando mói.
Em seu remoer e queimar infinito,
queima consigo a gentinha rasteira
o povinho que vivem em baixo,
povinho alado, povinho pardo.

Tenho pena da cana quando queima.
Em seu fragor, o progresso se avoluma
em montões de cinza e pó inúteis,
que na distância de um olho espreita
a anta quando sai pra beber,
o bandeira, o tatu, o mateiro.

Tenho pena da cana quando amontoa
índios, brancos e negros em galpões,
a espera de sua porção de açúcar e sal.

Tenho pena da cana quando avulta.
E seus senhores encastelados em mansões,
sonham com outro pau a queimar,
outra sombra, outra semente, outro regato,
insignificantes, inúteis e que não rendem.

Tenho pena da cana quando lucra
e seu dom de adoçar corroi como ácido,
o chão, o mato, a lua quando vem espiar.

Tenho pena da cana e sua nobreza
agora instrumento de açoites e pejo.

Tenho pena do João dos canaviais,
do Cabral, do Rosa, do Rego
que já não vemos mais.


sábado, 25 de julho de 2015

Joalheiro

Há por certo muitos Raimundos,
mas um, notório por não existir de fato
posto que inventado, sua voz é fado.
E deste que falo é sem rima
por sobrenome Batista, prima
barbear menos, que por contar causo.
Em Pedro Gomes, reza que assistia
seu ofício de navalha, tesouro e pia
embora montasse melhor em inventos,
com cela e arreios, nos lombos da fantasia.
Havia quem lhe cresse a porfia, como eu,
menino de antanhos , camafeu que ouvia.
Era por sombra de antigamentes que se dava
causo de onça assombrosa que morreu
ou lobisomem, - E inté arma penada!
Dai quem temia era o menino eu
que no embaixo, assuntoso idéiava.
Em seu confessório tosquiava gentes
que ovelhavam aquele mundaréco,
sempre planejando escapadas capitais,
posto que eram sonhos e venturas
que merejavam as ruelas abissais.
Eu lá, meninava um ouvido desconfiado,
aprendendo a embolorar palavras
que ainda hoje, daquele tempo alijado
recolho pedras de antigas lavras.

domingo, 19 de julho de 2015

Outro agosto

Agosto abriu sua boca fria e me engoliu;
Sourveu-me fastioso, lerdo e sem volúpia.
Pude ver por dentro seus dentes inquietos
moendo os restolhos já ressequidos da mindinha.
Um rosilho, roncoio de dois anos troteia esparçoso,
arremete bufando contra o baio e arrefece.
Nas copas, um silvo ventoso anuncia já a prenhês do mundo,
é tempo de as árvores empoemarem folhas.
Seus estames se soltam sem ruído e flanam até o chão.
Nas cidades, calçadas sórdidas ficam coloridas
e traduzem uma infinidade de matizes farfalhantes.
Coleciono agostos desde menino lá em Pedro Gomes.
Tenho uma caixa cheia de ventos e palavras inúteis:
Cisma, toleima e im'antes são destas que ajuntei.
Tenho ventos amarecelidos. Uso para desassombro.
Achei no monturo lá perdido esta: Rufião.
O Vardi que me amostrou e ensinou o sentido:
-Desbaguado que sobe na vaca mode marcar o cio!
Dai é só apartar e largar o brasino no pasto!
-Cê tem as letra guri, mas eu tenho garrão! Anuviou.
Tem também lida: desdita e tresontotem. Só por mode percisão.
-O Cuiudo não enjeita briga nem montaria! Ensina.
Eu, ventoso, olho pra dentro de um mourão corrompido,
que abrigou um vespão de riscas brancas nas patas.
A fala do Vardi vai afundando no buxo de agosto,
enquanto tento contar as cores que o bambu faz quando estala.
Sei a voz de todo pau quando geme empurrado pelo vento.
Aprendi que o rufião pega teima. -Causo da mardade!
-Presta não que morde a tropa e fica pulador!
Ensinou que o tordilho "a gente não divurga",
na boca da noite. -Tem que escuitar bem!
Tudo ponho no debaixo, por serventia que têm
todas estas coisas, são de grande utilidade e valor.




sexta-feira, 17 de julho de 2015

O barbeiro

Bem embaixo de um mundo esquecido em gaveta
fica esse lugaroso extinto em preto e branco,
onde algumas cores pintam lembranças meninas
aboletadas em uma cadeira de barbeiro,
cujo espaldar verdejento inclina-se para o nunca
e seu braço de madeira encerra certa sobriedade,
posto que assistia-lhe Raimundo (Por patente Batista).
Seus óculos agregavam-lhe certa notoriedade pública,
tal qual o padre, o alcaide, a parteira
e certo doido municipal ainda em serviço.
Contígua a navalha hesitante, cozia tia Ana
(Sua empresa diária era perfumar).
Um feijão de cheiro que pespegava dentro,
caldava seu gosto marrom até o pé da serra
encostada numa nuvem que morava lá desde antes.
(Pedro Gomes governava toda poesia que havia
albergada em alfogers do mascate Zé Bezerra).
Vinha do fundo uma cantilena gemida em stacatos
que anunciavam o caldo grosso e arroz soltinho.
O barbeiro provia cabelo e historia de onça, assombração,
valentia e certo lobisomem lá no olho d'água.
-Cunhece não? Bicho malino que é o cão!
-Só disvira pra homem em curral de merda!
Tic, tic, chap, chap a tesoura sóbria tinia.
A correia de couro mode afiar desconfiava a prosa,
o freguês confiado, com a cara cheia de chantili
nalguma vez gemia um: -hum! Oxente! Arre égua.
Nesse batido ia e desvinha ele porfiando.
Foi Raimundando longe, longe o Batista.
Fez filhos e netos, mas nem um deu barbeiro.
Seu espólio ficou-me por herança poética.
A serra derreteu a nuvem que era de algodão
e deixou no chão a marca de um tempo roto,
calcado pelos pés impiedosos do progresso.


O ninho

Uma velho caminhão obtuso passa branco.
Sua ignorância das crias é pressentida
e as cabeças não se movem por ele,
no entanto, a bicicleta com um menino vermelho
gira as parabólicas cheias de olhos sobre a grama,
mas o arreceio desvanece, e o casal segue sua prosa.
Em corujês, tudo se diz com olhares ruidosos
em amarelo, perspintado por manchinhas pretas
e a bola olhosa no meio que sabe tudo, assente.
Estão emburacadas ali em sua casa chão faz pouco,
causo que já conheciam o lugar de im'antes da praça,
do homem-pedra, do chão preto e daquele vum que vum que vai e é'vem.
Plantaram naquele buraco antigo quatro sementes
das quais vingaram três, mode que uma adubou.
Sabedoria de coruja não tem lágrima
porque o que é'vem, é'vai do mesmo modo o dom,
tanto quanto o vento que ensina as estações.
Cá, vejo elas fingindo ninho num mourão triste,
que é assim o modo delas desorientar:
"Ausência é silêncio bem explicado,
serve de cuidado dobrado".
Provérbio corujal que todas sabem.
-Inté lá na escola delas é regra viu seu moço!
Hum hum! (Que esse sou eu assuntando).
Veio-me à memória os óculos, a régua,
a gravata e o chapéu do professor coruja.
-Escolei uma lição de buraco e cuidado hoje! Perspensei.
-Coisas que im antes sinhor nem devia de saber!
-Nunca se sabe quando tem percisão de ninho né?
-Hum hum! (Corujei mode encerrar, a prosa ia lerda).